13.5.06

Do Little Boy dos Goitacazes

"Querem fazer do PMDB uma prostituta. Querem que o PMDB durma com os 40 ladrões do PT. Mas o PMDB não pode virar uma prostituta. O partido tem que ir para a cama com o povo brasileiro".

O ilustre primeiro-marido do Rio de Janeiro, infelizmente, não fornece nenhum indício do que deverá ser feito, estando a brava gente assim deitada e oferecida, com os pavilhões retofuriculares dos nossos auriverdes corpinhos.
Acho que já cansamos de saber. Com a graça de deus.

7.5.06

Hélène Grimaud


Alguns dentre meus dezessete e selecionados leitores já tiveram oportunidade de barbar-lhe em cima das louras e agilíssimas mãos, hélas, vendo-a no vídeo arrebatador da Ciaccona de Bach-Busoni.
Agora, em verdade, é necessário que vos diga.
Sua (dela) gravação da Kreisleriana, completada aos 17 encantadores aninhos (é o que mostra a capa do CD), é séria postulante ao mais alto posto no altar schumanniano - cujos santos maiores são, incontestes, Argerich, Horowitz e, vá lá, Richter.
A prise de son é tão boa que o ruído da haste do pedal direito chega a incomodar.
Hoje famosa, tendo aparecido até em programas do tipo Faustão-chic de canais franceses, nossa querida Hélèninha mora em Nova York e cria lobos, filantropicamente (ou será filupicamente?) em sua propriedade no Maine.

2.5.06

Há dez mil anos, numa galáxia muito distante...

...um professor de literatura da então maior universidade do país, durante uma aula de pós-graduação, afirmou que o maior escritor daquele século que tinha acabado de passar era "esquemático". Uma aluna, mal disfarçando seu terror, então perguntou-lhe se se referia apenas ao livro em questão ou a todos os outros do afamado poeta. A resposta, óbvia, incluiu no balaio da indigência mental do eminente propedeuta todas as milhares de páginas eternas que, por uma razão ou outra, foram com violência trancafiadas em interpretações redutoras e oportunistas, essas sim, "esquemáticas".

Moral: nunca confie em professores de literatura brasileira com língua presa.

1.5.06

V, E, R, D, I.

Admito, ele pode ser muitíssimo eficaz. Especialmente na Traviata . Desde que cantada por Angela Gheorghiu.
(Sérgio, que tal a Violetta?)

30.4.06

Efêmera efeméride

Constato que este caderno de umbigadas completa, right fucking now, sua primeira translação solar. Até que nos divertimos, não foi mesmo?

29.4.06

Pronunciamiento

Os marketeiros da Opus Dei parece que já tiraram de circulação o slogan que mencionava a necessidade de o Brasil ser governado por um gerente.
Penso que sacaram o ato hiper-falho de apontar "competência", "comprometimento" (sic) e "visão" como atributos de um cargo apenas intermediário na Corporação, e que pode supor, na proporção metonímica da distância até o verdadeiro CEO dos Superiores Desconhecidos, que os planos estão guardados em cofres ainda mais sinistros.

25.4.06

Hino de Cordisburgo (MG)

MÚSICA – Gilson G. Costa Mattos
LETRA - Francisco Timóteo Pereira

Cordisburgo, teu cenário
É o mais belo relicário
Em que a esperança fulgura...
Filhos pujantes, com graça simbolizam
Uma raça em trabalho, arte e cultura.
Berço de heróis e de gênios,
A Europa e seus milênios
Ante aos mesmos se curvou.

No ar, no mar ou na pena do
Grande Rosa nasce nas obras que a
História consagrou.
Por entre vales, colinas, no meio
Dessas Minas, tu tens a Mina maior.
Teu nome nela se funde, e com
Peter Lund o mundo tem-nos de cor.

Com vera grandiosidade
Deus faz a humanidade
Conhecê-lo e Ter fé:
Postou-se em feitos grandes
Como o Himalaia, os Andes
E a Gruta do Maquiné...

Essa escultura divina,
Que a milhões fascina,
Deus criou com inspiração.
Tu, Cordisburgo, és a tela
Tão rara, tão bela.
Que exalta a nação.

Cordisburgo, teu cenário...
Nos campos tangem boiadas,
E as roças bem tufadas
Frutificam teu labor.
Assim, gentis e garbosos,
Teus jovens operosos
Ostentam teu valor.

Salve sempre o Taumaturgo
Que te fez, Cordisburgo,
Para um fado tão grande.
CORAÇÃO – paz e alegria.
URBE da harmonia.
Com que o amor se expande.
Cordisburgo, teu cenário...

4.4.06

Traducción

(ao Orlando)

Capítulo lxviii. Como nossa mente pode transformar-se, e ligar coisas inferiores àquilo que deseja.

Existem, semelhantemente, certas virtudes nas mentes dos Homens, as de transformação, atração, oposição, e ligação àquilo que Eles desejam; e todas as coisas lhes obedecem, quando são compelidos a um grande excesso de qualquer Paixão ou virtude [vertu], como se para exceder aquelas mesmas coisas a que se ligam. Porque o superior se liga àquilo que é inferior, e o converte a si mesmo, e o inferior é pela mesma razão convertido no superior, ou de outro modo afetado, e por ele influenciado. Por esta razão, coisas que recebem um grau superior de qualquer Estrela ligam-se, ou atraem, ou se opõe a coisas que têm um inferior, concordando ou discordando entre si. Portanto um Leão teme um Galo, porque a presença da virtude Solar é mais adequada a um Galo que a um Leão: do mesmo modo a Magnetita atrai o Ferro, porque se lhe torna superior em ordem ao possuir o grau superior da Ursa Maior.

Assim o Diamante repele a Magnetita, porque na ordem de Marte lhe é superior. De modo parecido, qualquer homem, quando oportunamente exposto às influências Celestais, seja pelas afecções da sua mente, seja pela as devidas aplicações das coisas naturais; se ele se torna mais forte numa virtude Solar, se liga às coisas inferiores e as atrai para a admiração, e a obediência; na ordem da Lua à servidão ou às enfermidades; numa ordem Saturnal à quietude ou à tristeza; na ordem de Jupiter ao culto; na ordem de Marte ao medo, e à discórdia; na ordem de Vênus ao amor, e à alegria; numa ordem Mercurial à persuasão, e obsequiosidade, e assim por diante. Agora, o solo de um tal tipo de ligação é a mui veemente e irrestrita afecção das almas, com o concurso da ordem Celestial. Mas as dissoluções ou impedimentos de uma tal ligação são constituídos por um efeito contrário, que mais excelente e forte será, respeitando ao grande excesso de ligações mentais, quanto mais o afrouxar, e impedir. E finalmente, quando temerdes Vênus, oponde-lhe Saturno. Quando Saturno ou Marte, oponde-lhes Vênus ou Júpiter: porque os Astrólogos dizem que estes estão em grande oposição, e contrários uns aos outros, isto é, causando efeitos contrários naqueles corpos inferiores; Porque no céu, onde não existe desejo, e onde todas as coisas são governadas pelo Amor, não pode haver repulsão, ou hostilidade.

Agrippa von Nettesheim: De occulta philosophia, Book I

Chapter lxviii. How our mind can change, and bind inferiour things to that which it desires.

There is also a certain vertue in the minds of men, of changing, attracting, hindring, and binding to that which they desire, and all things obey them, when they are carried into a great excess of any Passion or vertu [vertue], so as to exceed those things which they bind. For the superior binds that which is inferior, and converts it to it self, and the inferior is by the same reason converted to the superior, or is otherwise affected, and wrought upon. By this reason things that receive a superior degree of any Star, bind, or attract, or hinder things which have an inferior, according as they agree, or disagree amongst themselves. Whence a Lion is afraid of a Cock, because the presence of the Solary vertue is more agreeable to a Cock then to a Lion: So a Loadstone draws Iron, because in order it hath a superior degree of the Celestiall Bear.

So the Diamond hinders the Loadstone, because in the order of Mars it is superior to it. In like manner any man when he is opportunely exposed to the Celestiall influencies, as by the affections of his mind, so by the due applications of naturall things, if he become stronger in a Solary vertue, binds and draws the inferior into admiration, and obedience, in order of the Moon to servitude or infirmities, in a Saturnall order to quietness or sadness; in order of Jupiter to worship, in order of Mars to fear, and discord, in order of Venus to love, and joy, in a Mercuriall order to perswasion [persuasion], and obsequiousness, and the like. Now the ground of such a kind of binding is the very vehement, and boundless affection of the souls, with the concourse of the Celestiall order. But the dissolutions, or hinderances of such a like binding, are made by a contrary effect, and that more excellent or strong, for as the greater excess of the mind binds, so also it looseth, and hindreth. And lastly, when the [thou] fearest Venus, oppose Saturn. When Saturn or Mars, oppose Venus or Jupiter: for Astrologers say, that these are most at enmity, and contrary the one to the other (i.e.) causing contrary effects in these inferior bodies; For in the heaven, where there is nothing wanting, and where all things are governed with love, there can in no wise be hatred, or enmity.

(translated by John Freake (sic), London, 1651)

26.3.06

Alejandra Pizarnik

EL DESPERTAR

a León Ostrov

Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
y se ha volado
y mi corazón está loco
porque aúlla a la muerte
y sonríe detrás del viento
a mis delirios

Qué haré con el miedo
Qué haré con el miedo

Ya no baila la luz en mi sonrisa
ni las estaciones queman palomas en mis ideas
Mis manos se han desnudado
y se han ido donde la muerte
enseña a vivir a los muertos

Señor
El aire me castiga el ser
Detrás del aire hay mounstros
que beben de mi sangre

Es el desastre
Es la hora del vacío no vacío
Es el instante de poner cerrojo a los labios
oír a los condenados gritar
contemplar a cada uno de mis nombres
ahorcados en la nada.

Señor
Tengo veinte años
También mis ojos tienen veinte años
y sin embargo no dicen nada

Señor
He consumado mi vida en un instante
La última inocencia estalló
Ahora es nunca o jamás
o simplemente fue

¿Còmo no me suicido frente a un espejo
y desaparezco para reaparecer en el mar
donde un gran barco me esperaría
con las luces encendidas?

¿Cómo no me extraigo las venas
y hago con ellas una escala
para huir al otro lado de la noche?

El principio ha dado a luz el final
Todo continuará igual
Las sonrisas gastadas
El interés interesado
Las preguntas de piedra en piedra
Las gesticulaciones que remedan amor
Todo continuará igual

Pero mis brazos insisten en abrazar al mundo
porque aún no les enseñaron
que ya es demasiado tarde

Señor
Arroja los féretros de mi sangre

Recuerdo mi niñez
cuando yo era una anciana
Las flores morían en mis manos
porque la danza salvaje de la alegría
les destruía el corazón

Recuerdo las negras mañanas de sol
cuando era niña
es decir ayer
es decir hace siglos

Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
y ha devorado mis esperanzas

Señor
La jaula se ha vuelto pájaro
Qué haré con el miedo

(N.W.th.: A Alejandra de Sábato teria escrito assim, heteronìmicamente poética fosse)

Englishmen's burden

A recente proibição do fumo em locais públicos fechados não atinge, segundo a lei aprovada pelo Parlamento britânico, "instalações de ultramar".
Não é por outra razão que as Armas da Nossa República ostentam, estreladas, ramas de café e de tabaco.

22.3.06

João Carlos Martins



É verdade, no filme nem se menciona o lance com o Maluf e tal. Vi-o. E fui atrás dos discos (força de expressão, nestes tempos de pirataria louca).
Ouçam-no, é o que diria aos comparsas interessados. Em tempo, ele (irmão doutro eminente pianista, José Eduardo Martins, em cujo estudo sobre Debussy a gente aprende a pasmar diante de filles aux cheveux de lin) e Glenn Gould são os únicos primatas, até o presente da redação desta humílima homenagem, que completaram a gravação das obras para teclado de Bach. Em cravo e clavicórdio há outras versões. Não é de estufar o peito e tremular bandeirinhas, num comício?

8.3.06

Abscena

Periquitos

Esse negócio de exército na rua - metranca aninhada em canteiros gramadinhos e tudo - nunca pode ser legal. Coreograficamente, inclusive, os matizes da camuflagem e certos modelos de blindados remetem, é forçoso admitir, à representação bananish de forças armatas idioléticas em quintos mundos de filmes roliúdi de categoria ainda ulterior - Mr. Chuck Norris atesta-o com especial e sempiterna bravura.
Coadjuvam-se numa tal caracterização o estrito cumprimento de uma tarefa imbecil e o panorama vastíssimo dos morros sem reboco.

5.3.06

Ela vem da Ásia













Finalmente uma paranóia realmente real: Ela vai chegar, e arrebentando.
(confirmam-no os sempre decantados "especialistas").
Na última (1968), 1,5 milhão esquinizaram-se para o outro mundo.
Impossível negar: será uma limpa das boas.

4.3.06

Alumbramento inzoneiro

O texto lido pela apresentadora de um telejornal de cujo nome quero esquecer-me - tratava-se de uma inserção vivinha da silva, straight from Los Angeles, sobre a dourada noite dos óscares - poderia perfeitamente, com algumas poucas adaptações nos toponímicos, onomásticos e cifras, passar pela locução de uma matéria sobre o desfile das escolas de samba do Rio, e terminava: "uma festa em que nada pode dar errado".
Pobre gosta de luxo, Trinta dixit.

22.2.06

A voz do Shuffle

Divindade poderosa. Acabara de, via curriculum, propor aluguel de força de trabalho a uma faculdade de Sorocaba quando, sub-reptício (aprendi com Clarice) e num coup de dés informático (como poderiam querer os irmãos Campos, todos eles o serão?), o programa de música houve por bem fazer-me ouvir "Sorocaba", primeira das danças da Suíte Saudades do Brasil, de Darius Milhaud. Doravante farei sempre consultas a um tão eficaz oráculo, mas quão dificultoso será interpretar Xenakis ou Hoffmeister!

17.2.06

11111: no estrito cumprimento do dever

Justiça foi feita (a palavra me lembra outras com sufixo homólogo, enfermiço, postiço).

26.1.06

Eu sou duzentos, sou duzentos e cincoenta

Amanhã se completa grande pá de tempo desde que João Crisóstomo Volfango Teófilo Mozart, em terras d'Áustria, veio ao mundo sob os auspícios do Aguadeiro.
Admito que derramei duas ou três lágrimas em sua homenagem, agorita mesmo, enquanto ouvia o movimento lento do Quinteto KV. 516. Mas meu preferido é o Concerto para Piano KV. 467, a primeira gravação que comprei na vida - ainda em fita, e na época do bicentenário de seu passamento. Oh tempora.

17.1.06

Credibilidade da imprensa aumenta no Brasil

Fonte: The Christian Science Monitor, Boston, Massachussetts.

11.1.06

Lapidações

A diferença fundamental entre cristianismo e islamismo se exprime mui claramente nas atitudes contraditórias em relação ao uso da pedra como instrumento vindicatório. À catarse coletiva da lapidação do Demõe em Meca corresponde, chez nóis, um "que atire a primeira pedra" broxador e desconectado dos anseios do populacho. Certo, há a malhação do Judas (cada vez menos praticada devido ao aggiornamento geral dos costumes), mas penso que nada pode substituir a leveza d'alma proporcionada por uma boa e certeira pedrada nas fuças de uma parede branca.
Algum peregrino muçulmano terá tido a saudável idéia de atirar ao capeta um pedaço do Muro de Berlim?

9.1.06

M x W

Wagner = Berlioz - Bizet

7.1.06

Porque me ufano de meu país (III)

O novo forum da comarca rioverdense tem uma sala de audiências batizada com o nome do primeiro juiz da cidade:

Paranaíba Pirapitinga Santana.

5.1.06


"Mais le dandy n'aspire pas à l'argent comme à une chose essentielle ; un crédit indéfini pourrait lui suffire."
Charles Baudelaire

A Voz do Demônio, traduzida

Todas as Bíblias e códigos sagrados têm sido as causas dos Erros seguintes.

1. Que o Homem possui dois princípios reais de existência: um Corpo e uma Alma.
2. Que a Energia, chamada Mal, vem unicamente do Corpo, e que a Razão, chamada Bem, vem unicamente da Alma.
3. Que Deus atormentará o Homem pela Eternidade por este seguir suas Energias.

Contudo, as seguintes Objeções são verdadeiras.

1. O Homem não tem Corpo distinto de sua Alma, pois o que se chama Corpo é uma porção da Alma percebida pelos cinco Sentidos, as principais portas de entrada da Alma nesta era.
2. Energia é a única vida e vem do Corpo, e Razão é o limite ou circunferência exterior da Energia.
3. Energia é Eterno Deleite.

Aqueles que reprimem seu desejo o fazem porque este é débil o bastante para que possa ser reprimido; e o repressor ou razão usurpa o lugar do desejo e governa os abúlicos.
Uma vez reprimido, o desejo aos poucos se vai tornando passivo até que seja apenas sombra do desejo.
Esta história está escrita n'O Paraíso Perdido, onde o Governador ou Razão é chamado Messias.
E o Arcanjo primordial ou comandante da hoste celestial é chamado o Demônio ou Satã e seus filhos são o Pecado e a Morte.
Contudo, no Livro de Job o Messias de Milton é chamado Satã.
Pois esta história foi adotada por ambos os partidos.
De fato, pareceu à Razão que o Desejo tinha sido expulso, mas o Demônio dá conta de que o Messias caído construiu um céu a partir do que havia roubado do Abismo.

Isto é mencionado no Evangelho, onde ele suplica ao Pai que lhe envie o consolador ou Desejo a fim de que a Razão possa ter Idéias com que construir. O Jeová da Bíblia não é senão aquele que vive entre as chamas.
Sabe que depois da morte de Cristo, ele se tornou Jeová.
Mas em Milton, o Pai é Destino, o Filho é a Razão dos cinco sentidos, e o Espírito Santo, Nada!
Nota: Milton escreveu sobre Anjos e Deus na prisão e em liberdade sobre Demônios e Inferno porque foi um verdadeiro Poeta e, sem o saber, do partido dos Demônios.

The voice of the Devil

All Bibles or sacred codes have been the causes of the following Errors.

1. That Man has two real existing principles Viz: a Body & a Soul.
2. That Energy, call'd Evil, is alone from the Body, & that Reason, call'd Good, is alone from the Soul.
3. That God will torment Man in Eternity for following his Energies.

But the following Contraries to these are True.

1. Man has no Body distinct from his Soul for that call'd Body is a portion of Soul discern'd by the five Senses, the chief inlets of Soul in this age.
2. Energy is the only life and is from the Body and Reason is the bound or outward circumference of Energy.
3 Energy is Eternal Delight.









Those who restrain desire, do so because theirs is weak enough to be restrained; and the restrainer or reason usurps its place & governs the unwilling.
And being restrain'd it by degrees becomes passive till it is only the shadow of desire.
The history of this is written in Paradise Lost, & the Governor or Reason is call'd Messiah.
And the original Archangel or possessor of the command of the heavenly host, is call'd the Devil or Satan and his children are call'd Sin & Death.
But in the Book of Job Miltons Messiah is call'd Satan.
For this history has been adopted by both parties.
It indeed appear'd to Reason as if Desire was cast out, but the Devil's account is, that the Messiah fell, & formed a heaven of what he stole from the Abyss.














This is shewn in the Gospel, where he prays to the Father to send the comforter or Desire that Reason may have Ideas to build on, the Jehovah of the Bible being no other than he who dwells in flaming fire.
Know that after Christs death, he became Jehovah.
But in Milton; the Father is Destiny, the Son, a Ratio of the five senses, & the Holy-ghost, Vacuum!
Note: The reason Milton wrote in fetters when he wrote of Angels & God, and at liberty when of Devils & Hell, is because he was a true Poet and of the Devils party without knowing it.

(William Blake, The Marriage of Heaven and Hell)

2.1.06

Fascismo x Totalitarismo

Hoje pela manhã chutei para a via pública um exemplar da Folha Universal depositado na caixa de correio.

30.11.05

Rédi-mêidi

Os compartimentos plásticos de carga fixados à traseira das motocicletas da PM goiana medem uns 2000 cm3 e ostentam a marca "TRAFFIC", em letras vermelhas e itálicas.

21.11.05

Fahrenheit Forever

O presidente do tribunal eleitoral entrega aos presidentes da câmara e do senado uma proposta legislativa em que se proíbem as imagens externas em programas eleitorais :

(omite-se a possibilidade de fundo-azul)

18.11.05

As palavras explicam o mundo

O identificador de chamadas do meu celular (sim, é uma longa história), na lista de opções em língua francesa, se chama petit police.

17.11.05

4.11.05

Whoopie pies

A dois reais cada, são a delícia imperdível da lanchonete amish de Rio Verde. A mocinha que as serve e cozinha é nurse formada em Kansas City. Uma camada espessíssima de glacê açucarado branco recheando duas metades reconciliadas do melhor brownie do Sudoeste Goiano.

20.10.05

Realização do desejo / Desejo de realização

"Os advogados [de Maluf] ainda afirmaram que a acusação de formação de quadrilha contra Flávio foi feita de forma incorreta, já que o Código Penal pressupõe pelo menos três pessoas, enquanto somente ele e seu pai estão presos."

18.10.05

Nelson Freire

O documentário do João Moreira Salles fez seus estragos. Teatro lotado.
(lembro-me de, em 99, assistir ao no. 3 de Beethoven com o mesmo Freire no mesmo Mvnicipav, sala semi-vazia)
Não muito a dizer sobre o segundo de Brahms. Confesso que o alemão, cujo nome, segundo McDonald, deriva de uma espécie de florica das planícies do Báltico, me deixa quase sempre careta. O segundo movimento, atrapalhado pelos aplausos extemporâneos da multidão extasiada com o final do primeiro, acorde de tônica com tímpanos e tutti, foi exemplo dessa quadradice intolerável (apud. trechos finais do Steppenwolf, do Hesse, outro quadrado). Mas o terceiro, e o quarto! A OSM correspondeu maravilhosamente a um esforçado Minczuk. As trompas, impecáveis.
Sobre o pianista, nada mais precisa ser dito. Cada nota no seu devido, inarredável lugar (coisa parecida só ouvi com Maria-João Pires e Bruno Gelber), intensidades exatas, satisfação plena. Nos extras, Brahms apaixonado por Clara, e Debussy por Chou-chou: Intermezzo Op. 117 em si bemol menor e Children's Corner, Serenata para a Boneca. Glória nacional, esse vovozinho simpático de Boa Esperança.
Depois disso, como ficar para o Prokófiev?

3.10.05

Até São Paulo

Duzentos e vinte quilômetros até Goiânia. O cerrado já está verde.
Então mais hora e meia até São Paulo.

29.9.05

Doce de manga

Minha mãe fez hoje. As mangas, verdes, pegou-as depois que a ventania sacudiu a mangueira da praça.

24.9.05

Porque me ufano de meu País (II)

Nas folhas: a Câmara de Porto Velho (RO) aprovou, em primeiro turno na quarta, um projeto de lei que declara, "profeticamente, Jesus Cristo como único Senhor e Salvador" da cidade. A idéia, que ainda precisa passar por uma segunda votação para se transformar em lei, é do vereador petista José Wildes. No segundo parágrafo de seu projeto de lei, o vereador garante que a cidade "renuncia toda obra realizada no passado de prostituição, impureza, lascívia, ruínas, homicídios, roubos, corrupção, idolatria, feitiçaria, tráfego [sic] de drogas, prostituição infantil, e toda maldição de primeira, segunda, terceira e quarta geração".

15.9.05

No NYTimes, a propósito do recrudescimento da Santa Inquisição

"Não se sabe quantos padres católicos são gays. As estimativas variam de 10% a 60%. O catecismo da Igreja Católica afirma que pessoas com tendências homossexuais 'profundas' devem viver em estado de castidade porque 'os atos homossexuais são intrinsecamente doentes'".

Até aí tudo bem, do peixe se espera que nade e dos deputados que roubem. Mas terá sido proposital o trocadilho sugerido com "profundas"? Hope so.

14.9.05

A mão libertária que lancetou...

Ao ouvir essa expressão sendo dita por alguém na tribuna do parlamento nacional, desliguei tudo e fui terminar de ler um livro sobre a Revolução Francesa.

9.9.05

Sete de Setembro (II)

Certa vez eu desfilei. Tinha 8 anos. Alguém me lambuzou com borra de café diluída em óleo de soja. Mandaram-me então, enquanto caminhava Avenida Presidente Vargas abaixo, sofrer açoites de mentira de um coleguinha não-pintado e melhor vestido. Representávamos, penso, a mistura de raças no Brasil.

8.9.05

Independence Day

A crônica dos desalmados e antipatrióticos comunistas dá conta de que o príncipe D. Pedro estava a defecar nas plácidas moitas do Ipiranga quando, ato contínuo, deu seguimento ao alívio geral gritando "As cortes portuguesas que se lasquem, ó pá!".
Já os livros de Educação Moral e Cívica, bastante insuspeitos, subscreviam tudo que Pedro Américo teve a cara de pau de, muitos anos depois, patrioticamente encenar: dragões, espadas desembainhadas (êpa!) e um sentimento geral de primeira missa.
Pessoalmente acho que tudo não passou de ceninha. As margens do Ipiranga parecem ok, mas como acreditar no Tarcísio Meira?

5.9.05

Mais de 300 mil pessoas vão a show de Elton John no Coliseu

Na próxima semana, aparecerá nos céus da Europa o cometa que anunciará o início da segunda etapa do Grande Plano: transformar, via bombardeio de cola seca-rápido e vidrilhos espelhados, a lua num imenso globo de boate.
Então todos os habitantes da Terra, dançando alucinadamente, serão presa fácil.

1.9.05

Definição negativa da alma

"É aquilo que se retrai quando ouve falar de séries algébricas"

Robert Musil, Der Mann ohne Eigenschaften

30.8.05

Ulrich militar

"Naquele tempo, não dava o mínimo valor a expressões pacifistas como 'educação armada do povo', mas recordava com paixão os tempos heróicos de feudalismo, violência e orgulho. Participava de corridas de cavalo, duelava, e distinguia apenas três espécies de pessoas: oficiais, mulheres e civis; os últimos eram uma classe fisicamente não desenvolvida e espiritualmente desprezível, cujas mulheres e filhas eram arrebatadas pelos oficiais. Entregou-se a um pessimismo sublime: parecia-lhe que se a profissão de soldado é um instrumento aguçado e ardente, era preciso queimar e cortar o mundo com esse instrumento, para seu próprio bem".

Porque me ufano de meu país

Em Rio Verde, praticamente todos os habitantes usam telefones celulares clonados em São Paulo. Os locais os chamam de "bodinhos", não sei se por anglicismo ou caprinidade. Os aparelhos são facilmente alugados de fornecedores devidamente habilitados - geralmente jovens delinqüentes de 15 ou 16 anos - e, após o uso, que pode durar dias de ligações internacionais ou para o Tocantins mesmo (nova Meca do deslumbramento migrante), são devolvidos para nova clonagem.
Quanto a vocês eu não sei, mas vejo nisso hábitos revolucionários muito salutares:

- práticas lesivas às empresas telefônicas multinacionais, de grão em grão, causarão sua ruína e a conseqüente libertação final dos povos oprimidos.
- são auto-sustentáveis.
- contam com o apoio tácito ou quase explícito das autoridades civis do lugar que, pouco a pouco convertidas à funcionalidade dessas práticas extra-legais, em breve farão vista grossa aos molotov.
- aumentam o PIB informal do município ao expropiarem os capitais de São Paulo, diminuindo assim as disparidades regionais e popularizando a comunicação digital.
- Confirmada a origem caprina do termo, muito de demoníaco e, conseqüentemente, subversivo, cristalizar-se-á pouco a pouco na fala cotidiana da população, conquistando corações, mentes e dedos (sic).

17.8.05

Guimarães Rosa é o maior

"Falo: português, alemão, francês, inglês, espanhol, italiano, esperanto, um pouco de russo; leio: sueco, holandês, latim e grego (mas com o dicionário agarrado); entendo alguns dialetos alemães; estudei a gramática: do húngaro, do árabe, do sânscrito, do lituânio, do polonês, do tupi, do hebraico, do japonês, do tcheco, do finlandês, do dinamarquês; bisbilhotei um pouco a respeito de outras. Mas tudo mal. E acho que estudar o espírito e o mecanismo de outras línguas ajuda muito à compreensão mais profunda do idioma nacional. Principalmente, porém, estudando-se por divertimento, gosto e distração".

15.8.05

Diacríticos (CMLXXXVI)

Leio em uóis algo sobre o incêndio em Fajao, Portugal.
Ora, dir-me-íeis, o gajo não entendeu como um "a" e um "o" são possíveis juntos assim em nome de cidade ou até mesmo de concelho. Fui descobrir (google's voice is de Deus) que é Fajão, claro, coitaditos.
Um revisor qualquer corrigirá tudo, hora mais ora menos.
Mas o lapso é, também claro, das agências de notícias, coitadas, desprovidas de teclados bem fornidos de coisinhas como um til.
O gerundismo e outras barbaridades putas são filhas da mera preguiça de ir ao Google.

Brasília e Gaza

Há tempos, durante minhas sessões vespertinas de ócio criativo, venho desenvolvendo uma teoria de analogias geopolíticas cujo corolário mais vistoso e cheio de sex appeal será o que envolve nossa capital federal e os ermos desérticos da Cisjordânia e de Gaza. Acompanhem-me, se não for estorvo.
O Distrito Federal, todos sabem, é um retângulo de terra tomado a Goiás desde há muito para que fossem abrigadas as castas de funcionários públicos que, forçadas a deixar o Rio de Janeiro pela realpolitik do Sr. Kubitschek, viram-se sem mais nem menos arrojadas ao cerradão hostil e longe de seus times do coração. Com o tempo e os superfaturamentos, construíram-se superquadras, vias expressas e o PIB per capita de Brasília tornou-se o maior do país, às expensas do resto da população, que lhe sustenta os salários e jetons. O chamado Entorno, ao contrário, é pobre de dar (muito) medo, e abriga no mais das vezes migrantes goianos, mineiros e nordestinos desesperados por um emprego qualquer de faxina, chapa ou até mesmo cafezinho no Plano Piloto. São discriminados, como no resto do Brasil bacana, pela cor da pele e pelo sotaque e, errando no tráfego, ainda sofrem os piores impropérios, atirados pela elite branca e bacana: "goiano!" daqui, "goiano!" dali.
Ora, não saltam aos olhos as similaridades com Israel? No caso desse interessante e belo país, certo dia um bando de burocratas da ONU decidiu instalar no estreito naco de terra erma entre o Mediterrâneo e o Mar Morto um novo Estado. Do dia para a noite multidões de judeus deslocados pela guerra lá se instalaram, dando início à expulsão dos nativos para as bordas e quebradas do território, de quando em quando expandidas em guerras fáceis. (Estimam-se em 4 milhões os refugiados). Hoje os mesmos palestinos são a principal força de trabalho subalterno, e com sangue e suor cuidam da manutenção das fábricas e latrinas israelenses. A leitura dos jornais dispensa-nos de aludir a seu sofrimento nas mãos dos maiorais e novos donos do pedaço, verdadeiro escândalo ainda coroado com um muro à la Berliner.
Ainda comigo? Bem, é que lendo sobre a retirada israelense de Gaza, fiquei matutando sobre a possibilidade de retirar à força e sem indenização alguns moradores legislativos do Plano Piloto. Seus apartamentos funcionais (cerca de 500, fora os dos assessores) abrigariam com folga algumas famílias de miseráveis do Entorno, que teriam ainda o direito de inverter os xingamentos recebidos no trânsito: "goiano, sim, e de Rio Verde!" e...
Mas sei lá.

12.8.05

Vixe

Pelo andar da land rover, teremos muito em breve que nos defrontar com as opções Alencar e/ou Severino, para em seguida cairmos no inominável, se é possível tal gradação entre absolutos grotescos.
A quem tem antepassados europeus detectáveis recomendo o início dos trâmites para a obtenção de dupla cidadania. Passaporte na mão, o negócio será vazar rapidinho: o projeto de 20 anos dos tucanos, após breve e malfadado interregno, periga seriamente vingar.
Quanto a mim, bisneto de mineiros e baianos, começarei a confeccionar os molotov, que remédio, e também me alistarei nas forças bolivarianas da Venezuela que nos ajudarão a combater a praga imperialista tucana e sanguinária. Tudo isso apenas metaforicamente, helas.
Mas Guimarães Rosa opera milagres, Schubert e Mozart existem e é necessário não perder a esperança jamás. Hamas?

11.8.05

Infalível certeza

Os maçons chineses de Liverpool estão claramente por trás dos Beatles, e, por conseqüência, de toda a música pop desde o advento, na década de 1960, do sinistro plano de dominação mundial cuja primeira etapa consiste no envenenamento das mentes dos jovens.
Não será outra a explicação para os olhos levemente puxados de John, cujo sobrenome mal consegue ocultar o temido Li No, apodo pelo qual é conhecida a famosa casta de mercenários ativos desde pelo menos a época Tang. Seu casamento com Yoko, essa notória integrante das fileiras da Rosa-Cruz japonesa, foi um movimento de alianças entre os braços maçônico e rosacruciano da conspiração. Outro dentre tantos indícios está em Imagine, toda ela um hino em louvor ao Governo Mundial que abolirá, consumado o Plano, as fronteiras e os governos.
Quanto a Paul, foi realmente assassinado pelos jesuítas irlandeses responsáveis pela manutenção do temível segredo iniciático, e embora fosse um mero e pífio regular mate de Merseyside, acidentalmente conseguiu descobrir tudo durante uma de suas bad trips com ginger beer. Foi em seguida substituído por um membro da Opus Dei treinado desde criança, na Schola Cantorum de Salamanca, a cantar sempre uma terça abaixo.
Quanto a John, morto em 1981 por um facínora a serviço dos batistas norte-americanos, pode-se especular que tenha sido eliminado numa queima de arquivo, por não ser mais útil aos desígnios do Plano - e mesmo porque, àquela altura, já estava em plena atividade o Elton John, ulteriormente condecorado por Elisabeth II (todos os Windsor descendem de israelitas húngaros enriquecidos com o comércio de betume, e financiadores do Plano).
Desde os 80s, cujo impacto sobre a saúde mental dos fãs de música pop é bem conhecido, esse Grande Plano tem funcionado sem que ninguém suspeite. Seus últimos desdobramentos - boys bands, Latino e Live 8 - mostram que a primeira etapa chega inexoravelmente a uma conclusão exitosa.

8.8.05

O Papel Mata-Moscas

O papel mata-moscas Tangle-foot tem, aproximadamente, trinta e seis centímetros de comprimento por vinte e um de largura; vem revestido de uma cola amarela, tóxica, e sua origem é canadense. Quando uma mosca pousa nele - não necessariamente por voracidade e sim por convenção, já que muitas outras ali se encontram -, grudam-se, em primeiro lugar, suas pequenas patas através dos apêndices externos que se dobram. Uma sensação de todo agradável e estranha, semelhante à de caminharmos no escuro e com os pés descalços pisarmos, subitamente, em algo que não é senão uma suave, quente e incompreensível resistência; algo para o qual pouco a pouco vai afluindo o pavoroso humano, reconhecido como uma mão, que sem se saber por que, ali se encontra e nos crava os cinco dedos, cada vez mais penetrantes.
Ali estão todas elas, retesadas, tal qual vítimas de dores lombares, sem intenção de deixar transparecer qualquer coisa, ou como velhos e alquebrados militares (com as pernas levemente arqueadas, como se estivessem no alto de um monte inclinado). Mantêm-se em posição de sentido, reunindo força e concentração. Depois de alguns segundos, tomam uma decisão e, zumbindo, procuram erguer-se tanto quanto possível. Executam essa ação furiosa por longo período, até que a exaustão as obrigue a parar. Seguem-se uma pausa para descanso e uma nova tentativa. Mas os intervalos vão-se tornando mais e mais espaçados. Ali estão elas, e percebo seu desnorteio. Erguem-se uns vapores túrbidos. Suas línguas, tal qual pequenos martelos, passam a tocar o exterior. Sua cabeça é marrom e peluda, lembrando um coco, como ídolos negros antropomórficos. Inclinam-se para frente e para trás sobre as pequenas patas firmemente presas; ajoelham-se e se levantam, como fazem os homens ao tentar de todas as maneiras mover uma carga pesada demais; mais trágicas que os operários, mais verdadeiras na expressão esportiva que o extremo esforço de Laocoonte. E eis que chega o momento sempre igual e estranho em que a necessidade do segundo que passa triunfa sobre todos os sentimentos poderosos e permanentes do ser. É o momento em que um alpinista, ao sentir os dedos doendo, abre voluntariamente as mãos; o momento em que alguém, perdido, deita-se na neve como uma criança; o momento em que um perseguido pára, com os flancos a lhe arder. Elas já não têm mais forças para manter-se ali em baixo, vão afundando pouco a pouco e, nesse momento, são inteiramente humanas. Vêem-se de súbito presas numa nova posição, pela parte superior de suas patas, ou pela parte de trás do tronco, ou ainda pela ponta de uma das asas.
Vencido o esgotamento anímico, e retomada, depois de um breve momento, a batalha pela vida, estão agora em condições desfavoráveis, e seus movimentos se tornam antinaturais. Ficam pois deitadas, com as patas traseiras apoiadas nos cotovelos, na tentativa de se levantar. Ou sentadas no chão, enroladas, com os braços estendidos, como mulheres que buscam em vão desvencilhar as mãos dos punhos de um homem. Ou deitadas de bruços, com a cabeça e os braços para frente, como se tivessem sofrido uma queda em meio a uma corrida, com a cara para o alto. Mas o inimigo continua passivo, fazendo progressos graças aos instantes desesperados e confusos delas. Um nada, um isto, as vai puxando para dentro. Tão lentamente que mal se pode acompanhar e, na maior parte das vezes, com uma rapidez brusca ao final, quando lhes sobrevém o último esmorecimento interior. Elas deixam-se cair subitamente, com a cara para a frente e as patas separadas; ou de flanco, com todas as patas esticadas; não raro também, de lado, impelido para trás as patas como remos. E assim continuam ali. Como aeroplanos derrubados, com uma das asas apontadas para o ar. Ou como cavalos arrebentados. Ou com gestos infinitos de desespero. Ou como pessoas adormecidas. No dia seguinte, uma delas ainda volta a despertar; põe-se a tatear por instantes com a pata ou a vibrar as asas. Às vezes, tal movimento se dá em todo o grupo, para só então afundarem todas um pouco mais em sua morte. E nos flancos, na região da qual lhes saem as patas, resta-lhes um órgão qualquer, vibrante e pequeno, que pulsa ainda por um certo tempo. Para cima e para baixo - impossível caracterizá-lo sem uma lente de aumento -, assemelha-se a um minúsculo olho humano que se abre e fecha sem cessar.

(Robert Musil)

3.8.05

O disfarce perfeito

Morar numa casa centenária nos fundos de um quarteirão bem comprido. Cuidar da avó de 106 anos. Ser alto, negro e gay. Usar sempre muito incenso.

1.8.05

Comunicado ao Público

Adiantando-me à aprovação da lei do Aldo Rebelo, eliminei todas as expressões inglesas deste blogue, substituindo-as pelo calão inzoneiro. Penso, assim, ter prestado um serviço à Gloriosa Última Flor do Lácio e sobretudo aos leitores indignados com a existência de línguas estrangeiras.

31.7.05

Entrelido numa camiseta

Pain is temporary. Losing is forever.

30.7.05

No novo Rubem Fonseca, Mandrake volta sem fôlego

LUIZ FERNANDO VIANNA
DA SUCURSAL DO RIO

Nas resenhas dos livros recentes de Rubem Fonseca, é comum ler que ele está se repetindo. Dizer isso é uma chatice, pois todo artista tem suas obsessões. Anões, charutos, vinhos, batráquios e mulheres são algumas das de Fonseca. Estão todas em "Mandrake: A Bíblia e a Bengala".Mas não é por isso que o livro não é um "grande Rubem Fonseca". Depois de oito anos sumido da obra do escritor, o advogado criminalista Mandrake (nascido Paulo Mendes) volta sem o mesmo vigor de outrora -o personagem também será tema neste ano de uma série da parceria Conspiração Filmes/HBO.Não há, nas duas novelas que compõem o livro, pistas de que ele esteja mais velho. Mandrake continua conquistador, volúvel (ama várias mulheres simultaneamente, talvez sem amar nenhuma), ágil fisicamente.Mas seu ritmo não é mais o sôfrego de "O Caso de F. A.", "Dia dos Namorados" e "Mandrake", contos do passado que, relidos hoje, não perderam nada da sua capacidade de deixar o leitor sem ar, acuado pela crueza de seus relatos, diálogos, imbróglios.O Mandrake do novo livro está um pouco mais calmo, disserta e contempla mais. É fiel à imagem de seu criador, que completou 80 anos em maio como um homem pleno de vigor físico e intelectual, mas um homem de 80 anos.Da mesma forma que em outras obras recentes, como "Diário de um Fescenino", Fonseca gasta várias páginas falando de seus -ou melhor, de Mandrake- prazeres (vinhos, charutos...), exibindo erudição, citando livros e curiosidades. É claro que há qualidade nas páginas, mas o ritmo das histórias sofre percalços.As tramas já são pretextos para esses passeios eruditos. "Em Mandrake e a Bíblia da Mogúncia", o advogado se envolve em um caso de furtos de livros raros, permeado por alguns assassinatos. O principal livro é a Bíblia do título, impressa por Gutenberg em 1462. Duas dessas raríssimas Bíblias ficam na Biblioteca Nacional, no Rio. Na novela, uma delas é furtada.Naturalmente, Mandrake resolve o caso, mas não sai ileso dele. Sua perna é baleada, o que o leva a ter de usar bengala, objeto-chave da segunda novela.Em "Mandrake e a Bengala Swaine", o anti-herói usa um arsenal de recursos para evitar a incriminação de uma suposta condessa e a sua própria -a bengala de que mais gosta é a arma utilizada para matar o marido de uma de suas amantes. Ele se safa, mas deixa claro, no final, que continua presa fácil de mulheres difíceis e histórias idem.Fonseca cria tramas paralelas que servem mais para aumentar o número de páginas do que para incrementar a narrativa. Na segunda novela, as peripécias da animada Jéssica ainda têm o tempero picante que não pode faltar em um livro do autor. Mas, na primeira, o caso do parvo farmacêutico Remy Gagliardi não ajuda muito. Mesmo sem o vigor do passado, é um prazer reencontrar Mandrake e outros personagens que o cercam, como o policial Raul, a enxadrista Berta e o sócio Weksler. Sobre este, uma curiosidade: nas histórias anteriores, ele se chamava Wexler; Fonseca escreve agora o nome correto de Luiz Weksler, que foi seu colega de faculdade e sócio em um escritório de advocacia que funcionou entre 1949 e 1951.E é sempre um prazer ler uma história escrita por Rubem Fonseca. Se ele se repete, está no seu direito como grande autor, ser humano e saudável octogenário.

Será a sério? Que espécies de rojões vagabundos são esses que a editora encomenda e recomenda nos releases que solta para a imprensa? Não sei se concordam, mas o tal Vianna simplesmente NÃO LEU o livro. O texto todo é muito menos significativo que as estrelinhas no rodapé. Eu também não li o Fonseca, mas vou fazê-lo, comme d'habitude, em muito breve.

25.7.05

Soluções mágicas

Em certo lugar de cujo nome quero esquecer-me, um grande amigo se submeteu por uma semana a um "tratamento" pago, hotel-fazenda, que lhe "restituiu" a autoconfiança, a coragem e a felicidade através da "reapropriação da capacidade de amar, o exercício da autonomia e a habilidade em manter um desenvolvimento pessoal e espiritual saudável através da experiência regeneradora do 'Eu' - a 'Essência', manifestação de nossa característica divina".
Por Júpiter. Não sei quanto custou, mas se são capazes disso tudo, foi barato. E rápido. Melhor que isso, talvez apenas o Êxtase de Santa Teresa de Ávila. A redenção ao alcance de qualquer um que pague e se apegue a esquemas mentais simplórios. Várias empresas, como é natural, já utilizaram os serviços dos bravos regeneradores de almas.
Isto é, trata-se de delírio messiânico não muito diverso de outras arapucas que falam de discos voadores.
Donde concluo tristemente que estou ficando sozinho no mundo.

21.7.05

London calling

Isso tudo em Londres faz-me lembrar daquele filme, Fim de Caso, em que uma historia de amor muito interessante eh arruinada pela carolice. Bombas explodindo na blitz enquanto rolava a velha introductio penis intra vas, ou como diz my dear droogie Alex, the old in-out-in-out: acho que no fim do filme a culpa pela metelanca acaba sendo expiada - pois os anglicanos, emulos envergonhados dos catolicos, tambem curtem uma culpazinha caliente, e depois o paroco cuida de tudo.
Eh realmente uma pena que eu nao seja religioso nem tenha uma Julianne Moore a minha espera em South Kensington, mas fazemos o que podemos. Espero escapar de pelo menos uns dois bons atentados.

19.7.05

Sexo com cavalo mata homem nos EUA

da France Presse

Um homem morreu nos Estados Unidos depois de ter relações sexuais com um cavalo em um sítio que funcionava como um "prostíbulo de animais", em Enumclaw, 60 km a sudeste de Seattle (Estado de Washington), de acordo com informações divulgadas pela polícia nesta segunda-feira.A vítima, um homem de 40 anos, sofreu graves lesões internas e seu corpo foi deixado por desconhecidos em um hospital de Seattle, no dia 2 de julho, pouco depois do ato."Do médico legista ao comissário, passando pelos investigadores, ninguém jamais viu algo remotamente parecido com isto", disse à France Presse Eric Sortland, chefe da polícia de Enumclaw. "Seu cólon rompeu, como os órgãos inferiores da mesma região, e a hemorragia o matou", completou.

Enquete: serah Brasilia, de factum, um prostibulo de animais? Se sim, quem sao os animais e quem sao os currados? Alem de nos mesmos, eh claro.

14.7.05

Verao em Devia

Faz calor no noroeste da Inglaterra. Algo como 22 graus, mas bastou. A limpeza das ruas e a alvura da pele de muitos ingleses transformaram-se rapidamente, desde o fim-de-semana, em vermelhidao camaronica e gramados palmilhados de pontas e embalagens plasticas.
Donde concluo que o que confere a dignidade ocidental, ordeira e positiva a estas terras do norte - pelo menos no olhar deslumbrado de quem preza urbanidades que tais - eh o frio.
Donde concluo que o maior e talvez unico de nossos males eh o calor, nosso intermitente e dissoluto calor. O sangue engrossa em nossos vasos suarentos, os navegantes portugueses o sentiram desde logo e deu no que deu.
Como jah disse Rubem Fonseca: os mendigos de Sao Paulo vestem-se com maior dignidade e aparentam mais donaire que os do Rio justamente por causa das periodicas inclemencias do clima paulistano. Frio e civilizacao, barbarie e calor.
Agora, esses paquistaneses...

Agora tambem na versao mais-que-mil-palavras

http://www.flickr.com/photos/igethigh

7.7.05

Liverpool

Ontem, em Chinatown (a mais antiga da Europa, dizem as placas; pena que tambem ha muito fecharam as casas de efluvios papoulicos), bebi cerveja chinesa. E, pasmem, encontrei uma loja maconica chinesa.
E, sim, fui ao Cavern Club e tirei fotos que venderei a 40 libras aos interessados.

6.7.05

O diabo tenta

Acabaram de propor-me ficar aqui por 3 meses. Oh hell. Que fazer? Devo impor que condicoes? Passagens semanais para Faro? Imunidade policial? Batatas fritas gratis?

Chester

Em 1645, o Rei assistiu da torre nordeste, nas muralhas, a seu exercito ser trucidado pelas tropas do Parlamento. Eita cidade mais realista!

5.7.05

Real Alfandega Venarda ou Como me Tornei Contrabandista

Esta eh, evidentemente, uma narrativa alegorica.

Conta-se, mas Bob Jeff sabe mais, que eu estava na boca do caixa do free-shop em Guarulhos, ansioso para fazer reconhecido meu direito de usufruir um super-binoculo do caralho (as libras na mao estimulavam o espirito levemente voyeur do consumismo desenfreado). E num eh que, metendo a mao no bolso, percebi que havia perdido o cartao de embarque? Incrivel. Comecaram as ilegalidades: o moco do caixa me vendeu o traste mesmo sem ele ("olha, eu vou quebrar essa pra voce, mas o certo &c."). Fui entao ate o federal do controle de passaportes e ele me disse para voltar ao balcao da companhia aerea. Como? "Ah, voce desce aquela escada ali e tal". Chegou uma especie de supervisora balofa pra fazer onda: "Eh, mas veja lah com a Receita sobre esse negocio que voce comprou, pode ser que eles encrenquem". Pois, descendo as tais escadas, descobri-me na fila do desembarque internacional! Um outro solicito federal, ao ouvir as minhas razoes: "vai lah, passa aih". Andando mais alguns passos, cheguei ao balcao da Receita, onde repeti a lenga-lenga a um sonado oficial alfandegario: "ah, nao tem problema, vai lah". Abriu-se uma portinhola eletronica e eis que estava no saguao principal do aeroporto, livre e aberto para o mundao.
Isto eh, tecnicamente tornei-me um contrabandista. Nesse caso especifico, meu cao (oxitona fechada, please) era verdadeiro, estupidamente verdadeiro, mas nao eh uma excelente burla das instituicoes mais arcanas da Republica?

4.7.05

From London

Civilizacao dos tijolos e da ausencia de diacriticos.

30.6.05

Entrementes, na Lusitânia...

Dançava-se o samba em Frankfurt e nem a inesperada queda de água no Waldstadion, após a cedência da cobertura do recinto, que não resistiu à chuva, esmoreceu os festejos canarinhos. Se um jogo entre estes dois países nunca é amistoso, ganhar é importante, golear é quase a glória suprema e o Brasil tinha caminho aberto para continuar a marcar. Adriano fez o 4-0 e os rostos humilhados dos jogadores argentinos já eram impossíveis de se esconder.

28.6.05

Agenciamento de palavras de ordem

Trechos seletos da revista corporativa da Acme Brothers, ecoando supostos e ovinos consumidores. Respostas à pergunta retórica "E para você, o que significa vitalidade?"

- "Eu quero fazer mais e estou sofrendo mais pressão em tudo o que faço - no trabalho e em casa. Eu preciso aumentar meus níveis de energia física e mental e recarregar minhas baterias (sic)."
- "Se eu tiver uma aparência melhor, vou me sentir melhor. Estou procurando coisas que me ajudem a controlar meu peso, a me manter em forma e ativo - e se puder aparentar menos idade, melhor ainda!"
- "Se for viver mais, quero me manter em forma. Meu coração, meu corpo e todos os meus sentidos precisam permanecer fortes. Se eu cuidar do meu corpo, a longo prazo minha saúde se cuidará sozinha (sic)."

27.6.05

Federais (II)

Hoje cedo, encontrei no setor de passaportes:
- a seleção brasileira e feminina de futebol;
- o maestro John Neschling;
- dois integrantes de uma seita católica cujo hábito cáqui se completa com botas SS e correntes de metal à guisa de cinta;
- um hidrocéfalo.

Follow the money

A segurança terceirizada do prédio da Polícia Federal, no Piqueri, compete a uma empresa chamada Fort Knox.

24.6.05

Back to sixties... 1460's

A Liga do Norte, partido de extrema-direita na Itália, apresentou um projeto de lei nesta semana que permite a castração de condenados por estupro. A proposta surgiu em meio ao aumento de registros no número de estupros no norte da Itália e a um debate que aponta a ampliação da imigração como a causa.

22.6.05

Delírio messiânico

Enforcar o último manager com as tripas do último papa.

20.6.05

25 de março

A data refere algum acontecimento já perdido na noite tenebrosa das sessões legislativas que batizam ruas. Certamente uma batalha ignominiosa, uma rendição incondicional negociada por 30 dinheiros ou ainda o glorioso nascimento da filha d'algum tribuno redundantemente cara-de-pau.
Mas que concretude colorida a dos tênis falsos! Perfumes de Paris, aris, chineses, coreanos, camelôs, electrônicos, bugigangas sem finalidade determinável, pirataria, contrabando, galerias infindáveis, mais chineses.
A 25 é daqueles lugares a que só se chega mal-intencionado.

16.6.05

Buenos Aires, 16 de junho de 1955

Os aviões da Marinha argentina que bombardearam a Plaza de Mayo, tentando matar Perón, tinham a seguinte expressão escrita na fuselagem: "Cristo Vence".

Bomba: the coupling couple

Diogo Vilela monta Cauby

15.6.05

Peixe na água.

Durante sua audiência geral desta quarta-feira, o papa Bento 16 pediu aos católicos que "orem pelos países humilhados por Estados arrogantes [sem citar nenhum país]". Ao final, colocou um capacete de bombeiro, usou o telefone celular de um fiel e vestiu um colar africano.

14.6.05

Splat-gore

"Meu Professor de Piano é Bacharel em Engenharia Cartográfica!"

Theodor W. Adorno e Max Horkheimer - Dialéctica do esclarecimento

Há uma coisa, porém, a propósito da qual a ideologia oca não admite brincadeiras: a previdência social. "Ninguém deve sentir fome e frio; quem sentir vai para o campo de concentração: " essa pilhéria da Alemanha hitlerista poderia estar a brilhar como uma máxima sobre todos os portais da indústria cultural. Ela pressupõe com astuta ingenuidade o estado que caracteriza a sociedade mais recente: o facto de que ela sabe muito bem reconhecer os seus. A liberdade formal de cada um está garantida. Ninguém tem que se responsabilizar oficialmente pelo que pensa. Em compensação, cada um se vê desde cedo num sistema de igrejas, clubes, associações profissionais e outros relacionamentos, que representam o mais sensível instrumento de controle social. Quem não quiser se arruinar deve tomar cuidado para que, pesado segundo a escala desse aparelho, não seja julgado leve demais. De outro modo, dará para trás na vida e acabará por ir a pique. O facto de que em toda carreira, mas sobretudo nas profissões liberais, os conhecimentos especializados estão, via de regra, ligados a uma mentalidade de conformismo às normas enseja facilmente a ilusão de que os conhecimentos especializados são os únicos que contam. Na verdade, faz parte do planejamento irracional dessa sociedade reproduzir sofrivelmente tão-somente as vidas de seus fiéis. A escala do padrão de vida corresponde com bastante exactidão à ligação interna das classes e dos indivíduos com o sistema. Pode-se confiar no manager, e confiável também é o pequeno empregado, Dagwood, tal como este vive na página humorística e na realidade. Quem tem frio e fome, sobretudo quando já teve boas perspectivas, está marcado. Ele é um outsider e, abstracção feita de certos crimes capitais, a culpa mais grave é a de ser um outsider. Nos filmes, ele será no melhor dos casos um indivíduo original, objecto de um humorismo maldosamente indulgente. Na maioria dos casos, será o vilão, identificado como tal desde sua primeira aparição, muito antes que a acção tenha se desenvolvido o suficiente para não dar margem ao erro de acreditar, ainda que por um instante apenas, que a sociedade se volta contra as pessoas de boa vontade. De facto, o que se desenvolve actualmente é uma espécie de Estado de bem-estar social em grande escala. Para afirmar sua própria posição, as pessoas conservam em movimento a economia na qual, graças à técnica extremamente desenvolvida, as massas do próprio país já são, em princípio, supérfluas enquanto produtoras. Os trabalhadores, que são na verdade aqueles que provêem a alimentação dos demais, são alimentados, como quer a ilusão ideológica, pelos chefes económicos, que são na verdade os alimentados. A posição do indivíduo torna-se assim precária. No liberalismo, o pobre era tido como preguiçoso, hoje ele é automaticamente suspeito. O lugar de quem não é objecto da assistência externa de ninguém é o campo de concentração, ou pelo menos o inferno do trabalho mais humilde e dos slums. A indústria cultural, porém, reflecte a assistência positiva e negativa dispensada aos administrados como a solidariedade imediata dos homens no mundo dos competentes. Ninguém é esquecido, todos estão cercados de vizinhos, assistentes sociais, Dr. Gillespies e filósofos domésticos de bom coração, que intervêm bondosamente junto a cada pessoa para transformar a miséria perpetuada socialmente em casos individuais curáveis, na medida em que a depravação da pessoa em questão não constitua um obstáculo. A manutenção de uma atmosfera de camaradagem segundo os princípios da ciência empresarial - atmosfera essa que toda fábrica se esforça por introduzir a fim de aumentar a produção - coloca sob controle social o último impulso privado, justamente na medida em que ela aparentemente torna imediatas, reprivatiza, as relações dos homens na produção. Esta espécie de "assistência aos flagelados" espiritual lança uma sombra conciliatória sobre os produtos audiovisuais da indústria cultural muito antes que esse auxílio saia da fábrica e se estenda sobre toda a sociedade. Mas os grandes ajudantes e benfeitores da humanidade, cujos feitos científicos têm de ser apresentados pelos escritores como actos de compaixão, a fim de extrair deles um fictício interesse humano, funcionam como lugar-tenentes dos chefes das nações, e estes acabam por decretar a eliminação da compaixão e sabem prevenir todo contágio depois de exterminado o último paralítico.

Theodor W. Adorno e Max Horkheimer - Dialéctica do esclarecimento: A Indústria Cultural.

Michael Jackson

Eu me lembro que, aos 8 anos, dançava Thriller imitando toscamente aqueles passos do break. Mas tinha medo de assistir ao clip.

13.6.05

Exasperação

No Rouge, os juízes, na véspera da prova de admissão à magistratura (motivo aliás presente desde o Dekalog 7, "Não Matarás"), deixam cair um livro da bibliografia que estudam. Um cai no fosso da orquestra de um teatro, o outro na faixa de pedestres. Ambos, especularmente, caem abertos no ponto que por coincidência (sic) cai na prova do dia seguinte.
Que fazer? Esperar que os livros caiam sozinhos da estante?

O Concerto Triplo

Confesso: derramei variegadas e furtivas lágrimas ao ouvir o movimento central do concerto supra. Martha Argerich, Renaud Capuçon e Mischa Maisky são os inflamados solistas nesta gravação com Rabinovitch e a Orchestra della Svizzera Italiana, ao vivo, no Festival de Lugano em 12 de setembro de 2002.
Como já o disse algures nossa mais tosca e inimitável amiga, sentimentos são para os fracos, certo?

Francisco Mignone

Conta-se, mas Allah sabe mais, que já idoso, o ilustre maestro, tocando uma de suas Valsas de Esquina, pôs-se a chorar e lamentar-se: "O que eu queria ter escrito mesmo era a Tosca".

10.6.05

Enquete

Algum de vocês já recebeu propostas de mensalão?

8.6.05

Utilidade pública das linhas de fuga

http://www.webdeleuze.com/php/sommaire.html

Terminei Bouvard e Pécuchet

A seqüência de assuntos dos quais os dois palermas tiram uma infinitude de ensinamentos imbecis e desencontrados é:

I. Agricultura
II. Ciências naturais
III. Arqueologia
IV. Literatura
V. Economia política
VI. Sentimento, Amor
VII. Misticismo, Filosofia
VIII. Religião
IX. Socialismo

A transição direta entre história e literatura, que reproduzimos algures, é hilária. No capítulo amoroso, a sífilis contraída de Mélie é simultânea aos eventos de 1848. Na "Educação", Frédéric obtém os favores da Marechala em meio às barricadas. No capítulo Religião, o vendedor de quinquilharias católicas, Gouttman, é naturalmente um usurário judeu.

Corolário Maupassant

Quem quer que tenha escrito sobre um assunto qualquer terá dito às vezes uma tolice.

São Tomé: Jesus morreu vítima de um coágulo, diz estudo

Segundo resultados de sua pesquisa, divulgada hoje pela publicação médica The Journal of Thrombosis and Haemostasis, o coágulo teria chegado a um pulmão. Brenner chegou a essa conclusão com o argumento de que Jesus, descendente de uma família judia de Nazaret, em Galiléia, no norte de Israel, sofreria - como outras pessoas dessa origem nessa região - de "trombofilia", isto é, seria propenso a tromboses.
O médico israelense afirma que, embora tenha sofrido antes da crucificação, a perda de sangue pelas feridas que sofreu não teria sido suficiente para provocar sua morte.

7.6.05

Varsóvia, 1981

Martha toca Schumann, Kinderszenen 1, e na platéia cuja parcela é visível detrás do piano apenas chineses. De óculos.

Brahms e Flaubert

Irmãos na Idéia. 11 anos os separam, e pelo menos uma revolução.
Um piadista norte-americano (e também maestro) dizia que nas salas de concerto se deveriam colocar placas na direção das saídas de emergência com a inscrição "EXIT IN CASE OF BRAHMS".
No Steppenwolf Brahms é mencionado pelo MozartMarley-Virgílio que acompanha o raríssimo herói ao Alquém do Além: "Brahms. Esse (Brahms, ao longe, carrega um enorme carro cheio de pedras) jamais conseguirá" - malgrados os poucos ipsis-líteris.
Quando Brahms morreu em Viena, em 1897 (certamente de incontinência urinária), via telégrafo os navios abrigados no porto de Hamburgo tocaram sinais e badalaram buzinas, arriando bandeiras.
Flaubert, que foi condecorado (em vida) por Napoleão III, o Único, teve como Brahms sua Madame Sch-., 14 anos mais velha Clara, a Arnoux uns 10 ou 11.

Idéias feitas (II)

Seguindo o enorme sucesso de público da primeira parte, vamos a mais algum tio Gustavo.

Alemães - Povo de sonhadores (velhos).
Ave - Desejar ser uma ave e dizer, suspirando, "Asas! Asas!" demonstra alma poética.
Apartamento de rapaz - Sempre em desordem. - Com bugigangas de mulheres espalhadas por toda parte. - Cheiro de cigarro. - Encontram-se aí coisas extraordinárias.
Clássicos - Deve-se fingir conhecê-los.
Constipação - Todos os homens de letras são constipados. - Influi sobre as convicções políticas.
Conversação - A política e a religião dever ser excluídas.
Estoicismo - É impossível.
Febre - Prova de sangue forte. - É causada pelas ameixas.
Ímpio - Combatê-lo.
Ingleses - Todos ricos.
Inglesas - Espantar-se que tenham filhos lindos.
Poeta - Sinônimo nobre de parvo (sonhador).
Sainte-Beuve - Na sexta-feira santa só jantava salsichas.
Tempo - Eterno tema de conversação. - Queixar-se sempre dele.
Wagner - Escarnecer quando se ouvir o seu nome, e pilherar sobre a música do futuro.

Idéias feitas

Alguns verbetes do utilíssimo dicionário, para continuar com o Cisne de Rouen:

Época (atual) - Revoltar-se contra ela. - Deplorar que não seja poética. - Chamá-la de época de transição, de decadência.
Erudição - Desprezá-la como prova de espírito limitado.
Funcionário - Inspira respeito, qualquer que seja função que exerça.
Gentil-homem - Não há mais gentis-homens.
Italianos - Todos músicos e traidores.
Latim - Língua natural do homem. - Estraga a caligrafia. - Serve unicamente para ler as inscrições das fontes públicas. - Desconfiar das citações latinas, pois ocultam sempre algo de licencioso.
Ortografia - Acreditar nela como se acredita nas matemáticas (e na geometria).
Valsa - Deve-se combatê-la.

Ramires em ultra-resumo

À noite, quando se acalmaram, Bouvard e Pécuchet retomaram o fio dos acontecimentos, reconsiderando quem teria bebido o Calvados, como é que a arca se espatifara, o que reclamara a Sra. Castillon ao chamar por Gorju, e se este havia desonrado Mélie.
- Nós ignoramos - disse Bouvard - o que se passa em nossa casa, mas queremos saber como eram os cabelos e os amores do Duque de Augoulême!
Pécuchet acrescentou:
- Quantas questões mais importantes e de mais difícil solução!
Daí concluíram que os fatos exteriores não são tudo; é preciso completá-los com a psicologia. Sem imaginação, a história é falha.
- Mandemos vir alguns romances históricos!

6.6.05

Martha, para variar

A maior surpresa, assistindo a esse vídeo que acabei de load down de Anete: descobrir que ela já foi gordinha. Minha namorada, Martha Argerich, já foi cheinha a ojos vistos. E eu que nunca suspeitei.

Bíblia do Executivo

A Bíblia do Executivo despertará o prazer de inspirar e conduzir pessoas segundo o estilo de liderança baseado na palavra dinâmica e eterna de Deus. De R$ 79,00 por R$ 69,90.

3.6.05

apud Pilatos

Que é a verdade, hein, hein?

apud Richard Rorty

Dizer que falamos a verdade sobre algo é apenas nos cumprimentar pela utilidade de um jargão inovador.

2.6.05

apud Goebbels

A mentira é uma espécie de verdade ainda muito jovem para que se lhe dê o suficiente crédito.

1.6.05

Para a Anistia Internacional, a prisão de Guantánamo é um gulag

"Algumas vezes há alegações de maus-tratos, mas, se você for investigar, em quase todos os casos elas vieram de alguém que estava preso, foi solto e agora fica contando mentiras sobre como foi tratado", disse Cheney. De acordo com o vice, os prisioneiros de Guantánamo "têm sido bem tratados, de maneira humana e decente".