"1. Os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: "Estou relendo ... " e nunca "Estou lendo ... ".
[...]
2. Dizem-se clássicos aqueles livros que constituem uma riqueza para quem os tenha lido e amado; mas constituem uma riqueza não menor para quem se reserva a sorte de lê-los pela primeira vez nas melhores condições para apreciá-las.
[...]
3. Os clássicos são livros que exercem uma influência particular quando se impõem como inesquecíveis e também quando se ocultam nas dobras da memória, mimetizando-se como inconsciente coletivo ou individual.
[...]
4. Toda releitura de um clássico é uma leitura de descoberta como a primeira.
[...]
5. Toda primeira leitura de um clássico é na realidade uma releitura.
[...]
A definição 4 pode ser considerada corolário desta:
6. Um clássico é um livro que nunca terminou de dizer aquilo
que tinha para dizer.
Ao passo que a definição 5 remete para uma formulação mais explicativa, como:
7. Os clássicos são aqueles livros que chegam até nós trazendo consigo as marcas das leituras que precederam a nossa e atrás de si os traços que deixaram na cultura ou nas culturas que atravessaram (ou mais simplesmente na linguagem ou nos costumes).
[...]
8. Um clássico é uma obra que provoca incessantemente uma nuvem de discursos críticos sobre si, mas continuamente as repele para longe.
[...]
9. Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos.
[...]
10. Chama-se de clássico um livro que se configura como equivalente do universo, à semelhança dos antigos talismãs.
[...]
11. O "seu" clássico é aquele que não pode ser-lhe indiferente e que serve para definir a você próprio em relação e talvez em contraste com ele.
[...]
12. Um clássico é um livro que vem antes de outros clássicos; mas quem leu antes os outros e depois lê aquele, reconhece logo o seu lugar na genealogia.
13. É clássico aquilo que tende a relegar as atualidades à posição de barulho de fundo, mas ao mesmo tempo não pode prescindir desse barulho de fundo.
[...]
14. É clássico aquilo que persiste como rumor mesmo onde predomina a atualidade mais incompatível."
(Italo Calvino)
28.9.12
7.8.12
26.7.12
Flexuoso e vinífero
Até hoje, em todas as vezes que venho ao cerrado, o reencontro com o buriti é sempre uma pequena comoção.
21.7.12
Afinal,
o ensinamento mais útil que restou de meus anos (êpa!) como engenheiro
químico foi o de saber que o processamento de álcool no figueirêdo é uma
reação de ordem zero. Isto é - ao contrário da maioria de todas as
outras reações do universo, não está nem aí para a concentração de reagente.
Etanol -> em algum momento glicose, mas a taxa não depende da
quantidade bebida, é invariável, é figadal. Daí o acúmulo, o excesso, a
enxúndia.
3.7.12
23.5.12
Quando dei à minha tese o subtítulo "atlas fotográfico", somando um aspecto conspícuo do trabalho a outro, ainda não sabia que os temas dos atlas fotográficos mais frequentes nas livrarias, bibliotecas e internetes correspondem exatamente às terceiras metades da Ideia toda: anatomia humana (ou histologia, fisiologia, zoologia, botânica etc.) e astronomia (os planetas e a Via Láctea).
20.5.12
Personal Xiros
Neste maio tive uma experiência aero-marítimo-terrestre equivalente à do comissário de bordo protagonista de "A ilha do meio-dia", conto do bom e velho Julio (Todos os fogos o fogo):
"[...] quando no oval azul da janela entrou o litoral da ilha, a franja dourada da praia, as colinas que subiam em direção ao planalto desolado. Marini sorriu para a passageira, corrigindo a posição defeituosa do copo de cerveja. 'As ilhas gregas', disse. 'Oh, yes, Greece', respondeu a americana com um falso interesse. Um som breve de campainha e o comissário de bordo se ergueu, sem que o sorriso profissional se apagasse de sua boca de lábios finos. [...] A ilha era pequena e solitária, e o Egeu a cercava com um azul intenso que ressaltava a orla de um branco deslumbrante e como que petrificado, que lá embaixo seria espuma rompendo nos recifes e nas enseadas. Marini percebeu que as praias desertas corriam em direção ao norte e ao oeste, o resto eram montanhas que entravam abruptamente no mar. Uma ilha rochosa e deserta, se bem que a mancha cor de chumbo perto da praia do norte pudesse ser uma casa, talvez um grupo de casas primitivas. Começou a abrir a lata de suco e ao erguer-se a ilha desapareceu da janela: sobrou apenas o mar, um verde horizonte interminável."
Minha última viagem ao Tocantins. Já bem perto do aeroporto da chegada, aí pelas 17h, vi pela janela estas duas pequenas enseadas, banhadas de sol na margem esquerda do lago. Há tempos as cobiçava como troféus faltantes em minha carreira de ciclista-fotógrafo contemplativo - talvez sejam as únicas reentrâncias não fluviais daquele litoral interior tão fluvialmente regular. Sabia pelo mapa gúglico que lá haveria boas photo-ops.
Pouco antes das 17h daquele mesmo dia da semana na semana seguinte, e após diversas peripécias no trajeto, logrei alcançar minha personal ilha de Xiros. Surpreso - pois ainda não havia me lembrado de Cortázar -, quando tirava a fotografia abaixo ouvi, e vi, logo acima de mim, um avião da mesma linha aérea baixando pelo rumo do pouso. Até distingui as janelinhas, bem nítidas.
E me vi me vendo. Disso, felizmente, não restou registro.
"[...] quando no oval azul da janela entrou o litoral da ilha, a franja dourada da praia, as colinas que subiam em direção ao planalto desolado. Marini sorriu para a passageira, corrigindo a posição defeituosa do copo de cerveja. 'As ilhas gregas', disse. 'Oh, yes, Greece', respondeu a americana com um falso interesse. Um som breve de campainha e o comissário de bordo se ergueu, sem que o sorriso profissional se apagasse de sua boca de lábios finos. [...] A ilha era pequena e solitária, e o Egeu a cercava com um azul intenso que ressaltava a orla de um branco deslumbrante e como que petrificado, que lá embaixo seria espuma rompendo nos recifes e nas enseadas. Marini percebeu que as praias desertas corriam em direção ao norte e ao oeste, o resto eram montanhas que entravam abruptamente no mar. Uma ilha rochosa e deserta, se bem que a mancha cor de chumbo perto da praia do norte pudesse ser uma casa, talvez um grupo de casas primitivas. Começou a abrir a lata de suco e ao erguer-se a ilha desapareceu da janela: sobrou apenas o mar, um verde horizonte interminável."
Minha última viagem ao Tocantins. Já bem perto do aeroporto da chegada, aí pelas 17h, vi pela janela estas duas pequenas enseadas, banhadas de sol na margem esquerda do lago. Há tempos as cobiçava como troféus faltantes em minha carreira de ciclista-fotógrafo contemplativo - talvez sejam as únicas reentrâncias não fluviais daquele litoral interior tão fluvialmente regular. Sabia pelo mapa gúglico que lá haveria boas photo-ops.
Pouco antes das 17h daquele mesmo dia da semana na semana seguinte, e após diversas peripécias no trajeto, logrei alcançar minha personal ilha de Xiros. Surpreso - pois ainda não havia me lembrado de Cortázar -, quando tirava a fotografia abaixo ouvi, e vi, logo acima de mim, um avião da mesma linha aérea baixando pelo rumo do pouso. Até distingui as janelinhas, bem nítidas.
E me vi me vendo. Disso, felizmente, não restou registro.
16.4.12
14.4.12
Glossary of Brazilian Terms
aguardente [ah.gwar.dehn'tih], literally "fire water"- same as cachaça
(q.v.)
buriti [boo.ree.tee], a mauritia or burity palm (Mauritia spp.).
caatinga [kah.teen'gah], any region of stunted vegetation, especially that found in the drought areas of northeastern Brazil.
cabra [kah'brah], bandit, ruffian; backwoods assassin; half-breed Negro.
cachaça [kah.sha'ssah], raw, white cane alcohol; called also pinga and aguardente.
capanga [kah.pahn'gah], thug, ruffian; hoodlum; hired assassin; henchman; bodyguard.
caruru [kah.roo.roo'], gumbo.
chapadão [shah.pah.dahoong], tableland, extensive plateau.
comblém [koom.blem], a type of gun of foreign make.
compadre [koom.pah'dreh], bosom friend, crony.
conto [kohn'too], one thousand milreis-about $250.00 at that time.
delegado [deh.leh.gah'doo], chief of police.
dona [doh'nah], lady, madam; also, a title equivalent to Miss or Mrs. prefixed to the Christian name: as, Dona Maria.
fazenda [fah.zehn'dah], large plantation or cattle ranch; a landed estate. (The Portuguese equivalent of Spanish hacienda.)
fazendeiro [fah.zehn.day'roo], owner of a fazenda; cattle rancher; planter.
farofa [fah.raw'fah], a dish made of manioc meal browned in grease or butter; sometimes mixed with bits of meat, crisp fat, chopped eggs, etc.
faveira [fah.vay'rah], a large leguminous tree.
gerais [zheh.rise'], high open country, vast upland plains in the backlands.
gravatá [grah.vah.tah'], any of numerous plants of the pineapple family.
jacuba [zhah.koo'bah], a drink composed of manioc meal, water, sugar or honey, and cachaça.
jagunço [zhah.goon'soo], in this book, a member of a lawless band of armed ruffians in the hire of rival politicos, who warred against each other and against the military, at the turn of the century, in northeastern Brazil. Cf. cabra and capanga.
januária [zhah.noo.ah'reeyah], a brand of cachaça (q.v.).
joão-conqo [zhoo.ah'oong kohn'goo], a large bird of the oriole family.
liso [lee'zoo], large, flat desert. Cf. raso.
milreis [meel.rays'], an old Brazilian monetary unit, equal at that time to about 25 cents.
mutuca [moo.too'kah], a kind of horse fly.
noruega [noh.roo.eh'gah], a cold, sharp wind; also, cool, damp ground sloping away from the sun.
pinga [peeng'ah], same as cachaça (q.v.).
piranha [pee.rahn'yuh], a voracious fresh-water fish: the caribe.
rapadura [rah.pah.doo'rah], raw brown sugar in hard squares, eaten as food or candy.
raso [rah'zoo], extensive tract of flat, desert land. Cf. liso.
saci [sah.see'], in Brazilian folklore, a small, one-legged, mischievous Negro, who pesters wayfarers at night or sets traps for them.
Seo, Seo, Seu, Sio = abbreviations of senhor (q.v.).
senhor [seh.nhor'], mister, sir; any gentleman. [Used in formal conversation as the equivalent of "you."]
serra [seh'rrah], sierra, mountain range.
sertão [sehr.tahoong'], hinterland, sparsely settled interior of the country; in particular, the backlands of the Brazilian Northeast. In this book, the term refers mainly to the northen half of the State of Minas Gerais.
sertanejo [sehr.tahn.ay.zhoo'], backlander; an inhabitant of the sertão.
traíra [trah.ee'rah], a voracious, fresh-water tropical fish.
vereda [veh.reh'dah], in this story, any headwaters stream smaller than a river.
zebu [zeh.boo'], humped cattle.
(Da edição gringo-ianque de GS:V, 1963, como oferenda ao sétimo ano de B.-do-U.; hurrah!)
(q.v.)
buriti [boo.ree.tee], a mauritia or burity palm (Mauritia spp.).
caatinga [kah.teen'gah], any region of stunted vegetation, especially that found in the drought areas of northeastern Brazil.
cabra [kah'brah], bandit, ruffian; backwoods assassin; half-breed Negro.
cachaça [kah.sha'ssah], raw, white cane alcohol; called also pinga and aguardente.
capanga [kah.pahn'gah], thug, ruffian; hoodlum; hired assassin; henchman; bodyguard.
caruru [kah.roo.roo'], gumbo.
chapadão [shah.pah.dahoong], tableland, extensive plateau.
comblém [koom.blem], a type of gun of foreign make.
compadre [koom.pah'dreh], bosom friend, crony.
conto [kohn'too], one thousand milreis-about $250.00 at that time.
delegado [deh.leh.gah'doo], chief of police.
dona [doh'nah], lady, madam; also, a title equivalent to Miss or Mrs. prefixed to the Christian name: as, Dona Maria.
fazenda [fah.zehn'dah], large plantation or cattle ranch; a landed estate. (The Portuguese equivalent of Spanish hacienda.)
fazendeiro [fah.zehn.day'roo], owner of a fazenda; cattle rancher; planter.
farofa [fah.raw'fah], a dish made of manioc meal browned in grease or butter; sometimes mixed with bits of meat, crisp fat, chopped eggs, etc.
faveira [fah.vay'rah], a large leguminous tree.
gerais [zheh.rise'], high open country, vast upland plains in the backlands.
gravatá [grah.vah.tah'], any of numerous plants of the pineapple family.
jacuba [zhah.koo'bah], a drink composed of manioc meal, water, sugar or honey, and cachaça.
jagunço [zhah.goon'soo], in this book, a member of a lawless band of armed ruffians in the hire of rival politicos, who warred against each other and against the military, at the turn of the century, in northeastern Brazil. Cf. cabra and capanga.
januária [zhah.noo.ah'reeyah], a brand of cachaça (q.v.).
joão-conqo [zhoo.ah'oong kohn'goo], a large bird of the oriole family.
liso [lee'zoo], large, flat desert. Cf. raso.
milreis [meel.rays'], an old Brazilian monetary unit, equal at that time to about 25 cents.
mutuca [moo.too'kah], a kind of horse fly.
noruega [noh.roo.eh'gah], a cold, sharp wind; also, cool, damp ground sloping away from the sun.
pinga [peeng'ah], same as cachaça (q.v.).
piranha [pee.rahn'yuh], a voracious fresh-water fish: the caribe.
rapadura [rah.pah.doo'rah], raw brown sugar in hard squares, eaten as food or candy.
raso [rah'zoo], extensive tract of flat, desert land. Cf. liso.
saci [sah.see'], in Brazilian folklore, a small, one-legged, mischievous Negro, who pesters wayfarers at night or sets traps for them.
Seo, Seo, Seu, Sio = abbreviations of senhor (q.v.).
senhor [seh.nhor'], mister, sir; any gentleman. [Used in formal conversation as the equivalent of "you."]
serra [seh'rrah], sierra, mountain range.
sertão [sehr.tahoong'], hinterland, sparsely settled interior of the country; in particular, the backlands of the Brazilian Northeast. In this book, the term refers mainly to the northen half of the State of Minas Gerais.
sertanejo [sehr.tahn.ay.zhoo'], backlander; an inhabitant of the sertão.
traíra [trah.ee'rah], a voracious, fresh-water tropical fish.
vereda [veh.reh'dah], in this story, any headwaters stream smaller than a river.
zebu [zeh.boo'], humped cattle.
(Da edição gringo-ianque de GS:V, 1963, como oferenda ao sétimo ano de B.-do-U.; hurrah!)
20.3.12
14.2.12
Consta que certo periódico semanal corrente entre a massa de burguesotes semiletrados baniu o emprego de caixa alta para referir-se a Estado, o conceito opressor consagrado pela ciência política comunista, deixando tudo igual a estado, mesma forma para os atuais entes da federação, o estado gasoso da matéria etc. Como é patético o fervor mercadista desses foliculários, que preferem incitar a confusão conceitual a abdicar de sua ridícula e repetitiva apologia ao liberalismo de free shop!
10.2.12
Duas providências urgentes e já tomadas sobre o restabelecimento de meu conforto "matérico-espiritual" (como já vi escrito a sério numa crítica de arte contiporânea) imediato: nova cadeira de rodinhas ("diretor") e nova afinação para o piano. O dó central, tão nosso amigo, estava de doer; assim como minhas costas na antiga cadeira dura, que agora serve para esticar as pernas. Eu envelheço, eu envelheço.
8.2.12
7.2.12
Os 24 bilhões por três aeroportos mequetrefes - um deles, o de Campinas, parece a antiga e execrável rodoviária daquela alegre cidade.
Outrora, os 4 bilhões - se tantos - pela Vale do Rio Doce inteira, jazidas eternas, milhares de quilômetros de ferrovias, portos, usinas siderúrgicas e tudo o mais, e cada vez menos, que há de metálico e não metálico por debaixo do chão. Quando morava em Minas havia até mesmo, e acho que ainda há, um glorioso time da terceira divisão que, fundado em 1942 num clube de funcionários - itabirano! -, costumava ser pronunciado "Valériodoce" pelos fans e locutores, ou, segundo os mais íntimos, "Valério"; deve ter entrado no pacote também.
Outrora, os 4 bilhões - se tantos - pela Vale do Rio Doce inteira, jazidas eternas, milhares de quilômetros de ferrovias, portos, usinas siderúrgicas e tudo o mais, e cada vez menos, que há de metálico e não metálico por debaixo do chão. Quando morava em Minas havia até mesmo, e acho que ainda há, um glorioso time da terceira divisão que, fundado em 1942 num clube de funcionários - itabirano! -, costumava ser pronunciado "Valériodoce" pelos fans e locutores, ou, segundo os mais íntimos, "Valério"; deve ter entrado no pacote também.
3.2.12
1.2.12
Deprimido com o triunfo da extrema-direta em todos os media. O fantasma do bolchevismo internacional, a despeito do financismo triunfante, logrou funcionar como espantalho permanente para o consumo de burguesotes semiletrados. Tudo que tem face de certo modo humana e social passou a ser automaticamente considerado suspeito de crimes capitais. No entanto, campeiam os fascistas de sempre, travestidos de honestos representantes do juste-milieu. A realidade deixou de ter qualquer mínima importância, tendo sido substituída pelas seduções escandalosas da reality controlada. Quem dera ser um peixe.
26.1.12
O que houve em Pinheirinho?
A ação realizada pelo governo paulista por intermédio de sua Polícia Militar em Pinheirinho, São José dos Campos, usou o nome técnico de "reintegração de posse". Algum juiz chamaria, com base no direito que aprendeu, de reintegração de posse o que houve em Pinheirinho? Ou haveria como fazê-lo com base nos artigos e princípios reunidos pela Constituição?
Se o nome técnico de reintegração de posse é insuficiente para designar a ação realizada em Pinheirinho, o que houve lá, com a utilização abusiva de um mandado judicial, ato tecnicamente legítimo de um magistrado?
O ataque foi às seis da manhã. Para surpreender, como se deu, os ocupantes da ex-propriedade de Naji Nahas ainda dormindo ou nos seus primeiros afazeres pessoais.
O governo Alckmin e o prefeito de São José dos Campos, ainda que há muito sabedores de que a reclamada reintegração exigiria a instalação das 2.000 famílias desalojadas, não incomodaram nesse sentido o seu humanitarismo de peessedebistas.
Sair para onde? -Eis o impulso da resistência dos mais inconformados ou menos subjugados pelos séculos de história social que lhes cabe representar.
Não posso dizer o que acho que devessem fazer já à primeira brutalidade covarde da polícia. Seja, porém, o que for que tenham feito, o direito de defesa está na Constituição como integrante legítimo da cidadania. E se foi utilizado, duas razões o explicam.
Uma, a ação policial de maneiras e formas não autorizadas pelo mandado de reintegração de posse, por inconciliáveis com os limites legais da ação policial.
Segunda razão, a absoluta inexistência das alternativas de moradia que o governo Alckmin e o prefeito Eduardo Cury tinham a obrigação funcional e legal de entregar aos removidos, para não expulsar, dos seus forjados tetos para o danem-se, crianças, idosos, doentes, as famílias inteiras que viviam em Pinheirinho há oito anos.
Atendidas essas duas condições, só os que perdessem o juízo prefeririam ficar na área ocupada, e alguns até resistirem à saída. Logo, ficam ali caracterizadas as responsabilidades de quem faltou com seus deveres e, por ter faltado, recorreu à arbitrariedade plena: tiros e vítimas de ferimentos, surras com cassetetes e partes de armamentos (mesmo em pessoas de mãos elevadas, indefesas e passivas, como documentado); destruição não só das moradas, mas dos bens -perdão, bem nenhum- das posses mínimas que podem ter as pessoas ainda carentes de invasões para pensar que moram em algum lugar.
O que houve em Pinheirinho, São José dos Campos, SP, não foi reintegração de posse.
Essa expressão do direito não se destina a acobertar nem disfarçar crimes. Entre eles, o de abuso de poder contra governados.
(Janio de Freitas)



