14.2.12

Consta que certo periódico semanal corrente entre a massa de burguesotes semiletrados baniu o emprego de caixa alta para referir-se a Estado, o conceito opressor consagrado pela ciência política comunista, deixando tudo igual a estado, mesma forma para os atuais entes da federação, o estado gasoso da matéria etc. Como é patético o fervor mercadista desses foliculários, que preferem incitar a confusão conceitual a abdicar de sua ridícula e repetitiva apologia ao liberalismo de free shop!

10.2.12

Duas providências urgentes e já tomadas sobre o restabelecimento de meu conforto "matérico-espiritual" (como já vi escrito a sério numa crítica de arte contiporânea) imediato: nova cadeira de rodinhas ("diretor") e nova afinação para o piano. O dó central, tão nosso amigo, estava de doer; assim como minhas costas na antiga cadeira dura, que agora serve para esticar as pernas. Eu envelheço, eu envelheço.

8.2.12

Como estou à espera de um concurso qualquer na área, para minimamente me preparar comecei a ler a história da literatura brasileira da Luciana Stegagno Picchio. É sem dúvida o melhor e mais informado manual da praça, além de vir numa ótima encadernação vermelha.

7.2.12

Dois sinais inequívocos de que estou mesmo restabelecido em São Paulo: mudei a cidade-padrão da consulta do Climatempo para esta capital sudestina; e trouxe comigo meu travesseiro insubstituível.
Os 24 bilhões por três aeroportos mequetrefes - um deles, o de Campinas, parece a antiga e execrável rodoviária daquela alegre cidade.
Outrora, os 4 bilhões - se tantos - pela Vale do Rio Doce inteira, jazidas eternas, milhares de quilômetros de ferrovias, portos, usinas siderúrgicas e tudo o mais, e cada vez menos, que há de metálico e não metálico por debaixo do chão. Quando morava em Minas havia até mesmo, e acho que ainda há, um glorioso time da terceira divisão que, fundado em 1942 num clube de funcionários - itabirano! -, costumava ser pronunciado "Valériodoce" pelos fans e locutores, ou, segundo os mais íntimos, "Valério"; deve ter entrado no pacote também.

3.2.12


Adopt a tree and kill a child, o my brothers.

1.2.12

Deprimido com o triunfo da extrema-direta em todos os media. O fantasma do bolchevismo internacional, a despeito do financismo triunfante, logrou funcionar como espantalho permanente para o consumo de burguesotes semiletrados. Tudo que tem face de certo modo humana e social passou a ser automaticamente considerado suspeito de crimes capitais. No entanto, campeiam os fascistas de sempre, travestidos de honestos representantes do juste-milieu. A realidade deixou de ter qualquer mínima importância, tendo sido substituída pelas seduções escandalosas da reality controlada. Quem dera ser um peixe.

26.1.12

O que houve em Rondônia?

 
E a Kátia "Pega no Meu" Abreu quer mais, muito mais.

O que houve em Pinheirinho?

Ficam ali caracterizadas as responsabilidades de quem faltou com seus deveres e recorreu à arbitrariedade
 

A ação realizada pelo governo paulista por intermédio de sua Polícia Militar em Pinheirinho, São José dos Campos, usou o nome técnico de "reintegração de posse". Algum juiz chamaria, com base no direito que aprendeu, de reintegração de posse o que houve em Pinheirinho? Ou haveria como fazê-lo com base nos artigos e princípios reunidos pela Constituição?
Se o nome técnico de reintegração de posse é insuficiente para designar a ação realizada em Pinheirinho, o que houve lá, com a utilização abusiva de um mandado judicial, ato tecnicamente legítimo de um magistrado?
O ataque foi às seis da manhã. Para surpreender, como se deu, os ocupantes da ex-propriedade de Naji Nahas ainda dormindo ou nos seus primeiros afazeres pessoais.
O governo Alckmin e o prefeito de São José dos Campos, ainda que há muito sabedores de que a reclamada reintegração exigiria a instalação das 2.000 famílias desalojadas, não incomodaram nesse sentido o seu humanitarismo de peessedebistas.
Sair para onde? -Eis o impulso da resistência dos mais inconformados ou menos subjugados pelos séculos de história social que lhes cabe representar.
Não posso dizer o que acho que devessem fazer já à primeira brutalidade covarde da polícia. Seja, porém, o que for que tenham feito, o direito de defesa está na Constituição como integrante legítimo da cidadania. E se foi utilizado, duas razões o explicam.
Uma, a ação policial de maneiras e formas não autorizadas pelo mandado de reintegração de posse, por inconciliáveis com os limites legais da ação policial.
Segunda razão, a absoluta inexistência das alternativas de moradia que o governo Alckmin e o prefeito Eduardo Cury tinham a obrigação funcional e legal de entregar aos removidos, para não expulsar, dos seus forjados tetos para o danem-se, crianças, idosos, doentes, as famílias inteiras que viviam em Pinheirinho há oito anos.
Atendidas essas duas condições, só os que perdessem o juízo prefeririam ficar na área ocupada, e alguns até resistirem à saída. Logo, ficam ali caracterizadas as responsabilidades de quem faltou com seus deveres e, por ter faltado, recorreu à arbitrariedade plena: tiros e vítimas de ferimentos, surras com cassetetes e partes de armamentos (mesmo em pessoas de mãos elevadas, indefesas e passivas, como documentado); destruição não só das moradas, mas dos bens -perdão, bem nenhum- das posses mínimas que podem ter as pessoas ainda carentes de invasões para pensar que moram em algum lugar.
O que houve em Pinheirinho, São José dos Campos, SP, não foi reintegração de posse.
Essa expressão do direito não se destina a acobertar nem disfarçar crimes. Entre eles, o de abuso de poder contra governados.
(Janio de Freitas)

22.1.12



De um excelente sítio evangélico.
Outro dia baixei um filme "pornô feminista" de uma famosa e premiada diretora sueca. Na essência, é igualzinho ao tradicional "pornô machista", mas há muito mais blablablá entre uma cena de sexo e outra - e, durante a coisa, se não é entre duas amigas, as mulheres quase sempre ficam por cima. Ademais, no final há uma cena de qualiragem entre baitolas depilados e de brinco - acho que para ressaltar o efeito de desvirilização planejado. Em suma, não vale nem meia bronha.

21.1.12

Lendo em série vários textos do Roberto Schwarz sobre Machado de Assis, entendi porque ele quase não fala de Guimarães Rosa: o materialismo dialético que serve tão bem à "viravolta" de Brás Cubas fica literalmente sem chão ao pé de um buriti fluente em Plotino.

19.1.12

Eu, hein

Esta besta página de bobices corre sério perigo. O google agora pede no login que se forneça um número de telefone celular "por razões de segurança" - de quem, não fica bem claro. Deve ser para rastrear a localização de blogueiros que dão receitas de bombas caseiras e soltar um personal missile na cabeça deles. Dei um número inventado, mas não sei por quanto tempo vão acreditar (e espero que minha vítima aleatória entenda a situação). Assim, se eu subitamente desaparecer é porque fui sequestrado por um comando SEAL e levado para alguma escola de reeducação moral e cívica no Bible Belt.

15.1.12

Eu já sabia

"Li muitos livros de cavalaria quando era menino, e, por volta dos 14 anos, entusiasmei-me com Ber­nardim (Bernardim Ri­beiro), e depois até com Camilo. Ainda continuo a gostar de Ca­milo, mas quem releio permanentemente é Eça de Queiroz (quando tenho uma gripe, faz mesmo parte da convalescença ler Os Maias); este ano já reli quase todo O crime do padre Amaro e parte da Ilustre casa de Ramires. Camilo, leio-o como quem vai visitar o avô; Eça, leio-o como quem vai visitar a amante."

JGR em entrevista a Arnaldo Saraiva, 1966

13.1.12

True grit (perdão, mas Bravura indômita soa tolo, conquanto não seja muito distante do sentido original) é o melhor faroeste a que já assisti. É verdade que não sou propriamente um veterano no gênero, mas os irmãos Coen conseguiram fazer um filme ao mesmo tempo sujo, violento, macho, sensível, comovente e sublime: grande.

11.1.12

Comecei a ler O amante de Lady Chatterley e não consegui passar da quinquagésima página: a prosa, o enredo e os personagens me pareceram tão bestas e tão perfeitamente adequados a uma paródia em filme pornô que achei melhor reler Esaú e Jacó. Certos livros só entram para o cânone porque são escritos em inglês.
Enquanto seo Melancolia não vem, descubro que a gravação de Le nozze di Figaro realizada em 1968 por Karl Böhm (com Hermann Prey, Edith Mathis, Gundula Janowitz e grande elenco) é ainda melhor que a de Carlo Maria Giulini (1961), que até agora ocupava meu topo das tops. O time feminino é fenomenal, a orquestra canta junto, transfigurada em instrumento único, e o Figaro de Prey é o mais bem-humorado que já ouvi.

Planeta Melancolia, por que tanto tardas?

"Enquanto o atendimento de saúde do complexo não fica pronto, a prefeitura vai oferecer no local a possibilidade de os dependentes químicos tomarem banho, dirigirem-se ao albergue para alimentação e descanso e, nas palavras da vice-prefeita, 'se distraírem'. 'São várias armas [para tirar os viciados das ruas]. A bola [de futebol] é uma mágica. A bola funciona com quase todos. Temos todos os joguinhos que têm nos bares de São Paulo. Pebolim é muito querido. Tênis de mesa, menos, mas também [é querido]. E temos jogos de tabuleiro', descreve a vice-prefeita."

9.1.12

O que mais me envergonha, revolta, consterna e enoja nem é tanto a truculência racista do pm que agrediu o coitado do menino no dce da usp - algo previsível quando a opus dei está no poder -, mas o uol dar a notícia com um "suposto" na frente de "estudante da usp" quando se vê no vídeo o próprio aluno se identificando, e que no texto está escrito que foram apresentadas duas carteirinhas como prova - como se fosse necessário ser estudante para estar naquele local público, como se fosse necessário ser considerado branco para não ser suspeito de qualquer coisa, para não apanhar e ser xingado. Que país de merda este nosso, que polícia de merda, que imprensa de merda. Planeta Melancolia, venha logo.

8.1.12

Em algumas semanas vão reeditar um capítulo do Verdade tropical numa espécie de livrinho semididático. Porque vou escrever a quarta capa, estou sendo obrigado a ler o caetânico bagulho. Que digo? "Bagulho" é bondade excessiva. É um troço escabrosamente narcisístico, pedante, balofo, pretensioso, abominável, mal escrito - ruim de doer. Não é à toa que o cara está ficando a cara do fhc enquanto envelhece. Para me desintoxicar, ouço "Nega" com Gil e Ben. Na raiz, limpa o corpo humano.