A "crise no campo" - isto é, o acometimento mais ou menos sazonal de uma febril necessidade de trocar o possante Peugeault pelo charmoso Renot (Liberté é o nome da concessionária Renot em Rondonópolis) - compeliu recentemente centenas de latifundiários a um protesto anti-Governo que interrompeu com tratores e pneus em chamas o tráfego da rodovia federal - quase sob as janelas condicionadas do escritório de Diego.
Enquanto observa a fumaça negra evolar-se rapidamente das barricadas, Diego bebe um cinnamon capuccino (grátis na máquina do corredor). Tirando os sapatos (é horário de almoço, sozinho) suspira cansado.
As intempéries do mercado de alimentação de suínos, ainda bem, não parecem ter afetado a prosperidade profissional do nosso herói. Ao contrário, a gerência regional de carbon credits trade é um cargo prestigiado em tempos de incertezas.
Enquanto os agricultores (sic) protestam e depredam, hostilizando malhando massacrando um boneco fatiotado e vagamente barbudo, Diego pensa em Rejane.
Rejane é sua amante mais ou menos regular, bastante morena e ligeiramente prognata, que conheceu numa noite de bebedeira no forró. Diego só acordou algumas horas depois, no motel, e teve um sobressalto: a moça era, em verdade vos digo, bastante feia.
7.11.06
Confissão
Num filme por mim condignamente pirateado contrabandeado roubado com o auxílio de uma excelente mula (e-mule) de arquivos, aviãozinho infalível, aparece repentinamente uma legenda corporativa anti-pirataria - instantes após as personagens discutirem o sucesso de vendas do livro ("a tiny bestseller") recém-publicado por uma delas. Significância?
5.11.06
2.11.06
Cerradas (III)
Rebento da classe média-alta paulistana (Vila Mariana), Diego é católico (crismado) e de ascendência misturadamente européia: ao longo das décadas, italianos, espanhóis e alemães acasalaram-se com crioulos, portugueses e caboclos para que o atual esplendor entre grãos de seu dileto descendente pudesse acontecer na borda oesteã do Planalto Central.
Diego tem apenas um irmão. Daniel chegou a se formar em Sociologia pela Usp e, depois de trabalhar poucos mas afluentes anos numa empresa norte-americana de pesquisa de marketing, hoje em dia milita numa organização do terceiro setor que recolhe os fundos obtidos com a reciclagem de embalagens usadas de agrotóxicos no norte do Espírito Santo para a assistência aos desvalidos índios da Ilha do Bananal. Votou, naturalmente, em Alckmin, porque a "crise no campo" reduziu em um terço a quantidade de embalagens descartadas à beira das rodovias capixabas.
Diego, como ele, odeia Lula. É mesmo possível imaginar que os sinais de plástico colante mal-apagados sobre a luzidia lataria negra da traseira de seu Nissan tenham sido produzidos por um adesivo do devoto das gravatas amarelas retirado em dias recentes, mas não há certeza: perguntado, Diego se irrita e, levemente alterado, começa a desfilar um infindável rosário de vitupérios e doestos contra o Governo.
Será melhor falarmos do Palmeiras.
Diego tem apenas um irmão. Daniel chegou a se formar em Sociologia pela Usp e, depois de trabalhar poucos mas afluentes anos numa empresa norte-americana de pesquisa de marketing, hoje em dia milita numa organização do terceiro setor que recolhe os fundos obtidos com a reciclagem de embalagens usadas de agrotóxicos no norte do Espírito Santo para a assistência aos desvalidos índios da Ilha do Bananal. Votou, naturalmente, em Alckmin, porque a "crise no campo" reduziu em um terço a quantidade de embalagens descartadas à beira das rodovias capixabas.
Diego, como ele, odeia Lula. É mesmo possível imaginar que os sinais de plástico colante mal-apagados sobre a luzidia lataria negra da traseira de seu Nissan tenham sido produzidos por um adesivo do devoto das gravatas amarelas retirado em dias recentes, mas não há certeza: perguntado, Diego se irrita e, levemente alterado, começa a desfilar um infindável rosário de vitupérios e doestos contra o Governo.
Será melhor falarmos do Palmeiras.
31.10.06
22.10.06
Cerradas (II)
Diego e sua namorada rondonopolitana (loura, filha de paranaenses) viajarão de carro (no dele, Nissan 2005) até a Chapada dos Guimarães.
Partem no próximo natal, quando finalmente conseguirão férias, Diego depois de quase 2 anos de "trampo sem parar", ela fechando o consultório dentário.
Diego nem esperou terminar a última prova de M. Sch na Formula 1, neste domingo, para mandar por e-mail uma confirmação da reserva da pousada em que passarão, ele e Roberta, o revéillon. "Chalés confortavelmente instalados numa exclusiva área de vegetação original, decorados com o melhor do artesanato indígena do Mato Grosso". Pensão completa, ceia, hidromassagem, champagne.
*
Desde que comprou uma versão condensada do guia Larousse, Diego tem se dedicado ao aprendizado da misteriosa ciência dos Vinhos Importados, que lhe parece tanto mais estimulante quanto caros (até o máximo de 350 reais a garrafa, pois Diego participa da comunidade "Confraria do vinho barato" no orkut) e impronunciáveis os rótulos das garrafas.
Diego há tempos é amigo do dono do Emporio Santa Clara, o único estabelecimento que ainda vende bordeaux e boa mostarda de dijon , que ambos "adoram", na cidade (neste fim de ano, devido à crise geral do mercado de alimentação de suínos, negociado na Bolsa de Chicago, cerraram portas duas das três casas fornecedoras de bens de consumo não-durável e conspícuo de Rondonópolis. Chamavam-se Delikaten e Bistrô Bar & Store).
Paulo César é paulistano como Diego, palmeirense também, pai, sitiante amador e membro da diretoria do Clube de Diretores Lojistas. Ontem marcaram uma trilha de bike para o próximo domingo.
*
Diego tem certas veleidades intelectuais. Assina VEJA; já leu cinco livros neste ano. Debaixo de ordem: O Monge e o Executivo; Quando Nietzsche Chorou; 1001 Meditações (sic);
Liderança e Visão - 25 Princípios Para Promover a Motivação; e o último, que não conseguiu compreender em absoluto, A Metamorfose. "Não consigo entender porque ele vira uma barata".
Há duas livrarias em Rondonópolis.
Partem no próximo natal, quando finalmente conseguirão férias, Diego depois de quase 2 anos de "trampo sem parar", ela fechando o consultório dentário.
Diego nem esperou terminar a última prova de M. Sch na Formula 1, neste domingo, para mandar por e-mail uma confirmação da reserva da pousada em que passarão, ele e Roberta, o revéillon. "Chalés confortavelmente instalados numa exclusiva área de vegetação original, decorados com o melhor do artesanato indígena do Mato Grosso". Pensão completa, ceia, hidromassagem, champagne.
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Desde que comprou uma versão condensada do guia Larousse, Diego tem se dedicado ao aprendizado da misteriosa ciência dos Vinhos Importados, que lhe parece tanto mais estimulante quanto caros (até o máximo de 350 reais a garrafa, pois Diego participa da comunidade "Confraria do vinho barato" no orkut) e impronunciáveis os rótulos das garrafas.
Diego há tempos é amigo do dono do Emporio Santa Clara, o único estabelecimento que ainda vende bordeaux e boa mostarda de dijon , que ambos "adoram", na cidade (neste fim de ano, devido à crise geral do mercado de alimentação de suínos, negociado na Bolsa de Chicago, cerraram portas duas das três casas fornecedoras de bens de consumo não-durável e conspícuo de Rondonópolis. Chamavam-se Delikaten e Bistrô Bar & Store).
Paulo César é paulistano como Diego, palmeirense também, pai, sitiante amador e membro da diretoria do Clube de Diretores Lojistas. Ontem marcaram uma trilha de bike para o próximo domingo.
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Diego tem certas veleidades intelectuais. Assina VEJA; já leu cinco livros neste ano. Debaixo de ordem: O Monge e o Executivo; Quando Nietzsche Chorou; 1001 Meditações (sic);
Liderança e Visão - 25 Princípios Para Promover a Motivação; e o último, que não conseguiu compreender em absoluto, A Metamorfose. "Não consigo entender porque ele vira uma barata".
Há duas livrarias em Rondonópolis.
20.10.06
The bloodiest mary
Não assisti, mas me disseram que desta vez Lula moderou na cachaça antes do debate e até que conseguiu assinalar um ou dois touché. hic! Confere?
16.10.06
"Se o senhor souber, sabe; não sabendo, não me entenderá."O diminuto mas entusiástico clube dos apreciadores da arte sutil de Jordi Savall, o barbado catalão da viola de gamba, há algumas semanas não consegue parar de escutar o delicioso último álbum de Arianna Savall, filha dileta do erudito maestro e de sua encantadora, invencível e divina consorte-soprano Montserrat Figueras. A jovem Arianna - é mister confessarmos - nos parece que canta e toca lira como a própria Musa. Além disso, é a cara da mãe: suspiremos, e depois escutemos.
14.10.06
Cerradas
Diego é um jovem singelo.
Enquanto escrevo estas tortas linhas, Diego mora em Rondonópolis, Mato Grosso, onde exerce devotadamente um importante cargo executivo numa das duas multinacionais norte-americanas responsáveis pela substituição da paisagem nativa dos chapadões locais por infinitas gondoleiras verdes de ração suína.
Embora more num bairro de elite, com seguranças e enormes sobrados, Diego demorou a acostumar-se à sujeira vermelha das ruas da nova cidade, às feições cafuzas de grande parte da população que, ao volante de seu jipe com ar-condicionado, precisa diariamente encarar nos trajetos de casa ao trabalho e para casa. Mesmo na fábrica, entre os subalternos ligeiramente mais instruídos, Diego sofre o incômodo sonoro da fala local, demasiado próxima do que ele considera baiano demais.
Diego quer acreditar que o presente cargo na multinacional norte-americana é um incômodo mas necessário estágio em sua ascensão profissional - que desde o MBA em agri-business vem prosperamente tomando a direção do mercado de commodities e, desde há alguns meses, de créditos de carbono -, mas a saudade da cosmopolita capital o faz suspirar na sacada de seu flat, de onde avista a rodovia federal e os silos prateados da multinacional concorrente.
A despeito do salário ainda apenas razoável, segundo seus anseios de consumo de classe média-alta, Diego é feliz. Tem, afinal, uma bicicleta de aço-carbono alemão que usa para fazer expedições atléticas e fotográficas (8 megapixels) às matas de galeria da região, únicas que, pela contigüidade contraproducente dos brejos e córregos, escaparam ao triunfo alimentar dos porcos chineses.
Um luzidio carro importado garante a Diego intensa receptividade em meio aos femininos contingentes de aborígenes que, ansiosos por genes branquinhos, abonados e, de preferência, paulistas, especializam-se com cada vez mais sucesso no nicho "jovens ricos de fora".
Diego talvez seja um rapaz de sorte.
Enquanto escrevo estas tortas linhas, Diego mora em Rondonópolis, Mato Grosso, onde exerce devotadamente um importante cargo executivo numa das duas multinacionais norte-americanas responsáveis pela substituição da paisagem nativa dos chapadões locais por infinitas gondoleiras verdes de ração suína.
Embora more num bairro de elite, com seguranças e enormes sobrados, Diego demorou a acostumar-se à sujeira vermelha das ruas da nova cidade, às feições cafuzas de grande parte da população que, ao volante de seu jipe com ar-condicionado, precisa diariamente encarar nos trajetos de casa ao trabalho e para casa. Mesmo na fábrica, entre os subalternos ligeiramente mais instruídos, Diego sofre o incômodo sonoro da fala local, demasiado próxima do que ele considera baiano demais.
Diego quer acreditar que o presente cargo na multinacional norte-americana é um incômodo mas necessário estágio em sua ascensão profissional - que desde o MBA em agri-business vem prosperamente tomando a direção do mercado de commodities e, desde há alguns meses, de créditos de carbono -, mas a saudade da cosmopolita capital o faz suspirar na sacada de seu flat, de onde avista a rodovia federal e os silos prateados da multinacional concorrente.
A despeito do salário ainda apenas razoável, segundo seus anseios de consumo de classe média-alta, Diego é feliz. Tem, afinal, uma bicicleta de aço-carbono alemão que usa para fazer expedições atléticas e fotográficas (8 megapixels) às matas de galeria da região, únicas que, pela contigüidade contraproducente dos brejos e córregos, escaparam ao triunfo alimentar dos porcos chineses.
Um luzidio carro importado garante a Diego intensa receptividade em meio aos femininos contingentes de aborígenes que, ansiosos por genes branquinhos, abonados e, de preferência, paulistas, especializam-se com cada vez mais sucesso no nicho "jovens ricos de fora".
Diego talvez seja um rapaz de sorte.
6.10.06
30.9.06
Agora vai
19.9.06
10.9.06
1.9.06
28.8.06
Justificando
Se eu não fosse justificar, votaria no Lula porque ele deu aumento às parcelas do seguro-desemprego de que pude populisticamente desfrutar.
26.8.06
"What is your quest?"
Uns com os outros se embaraçando, travados, e Pê com medonhos gritos moronava por de entre êles, beligno (...)
Fico
Os anseios populares são irreprimíveis, pois refletem a vontade do Senhor - que segundo o Angeli se chama Tenório Gomalina.
Obrigado, ó milhões! Uma vez que as coisas continuam do mesmo jeito, tudo mudará.
Obrigado, ó milhões! Uma vez que as coisas continuam do mesmo jeito, tudo mudará.


