11.3.07

Emanuel Vão Gôgo

No dia em que houver cinema nacional com cheiro vamos deixar o olfato em casa.

(O Cruzeiro, 3 de outubro de 1959)

Ignore this terrible drug

10.3.07

Despacho

Apesar dos inúmeros solecismos e cacófatos cometidos pelo Autor, agora contamos com patrocínio oficial (estadual, total) para nossas intermináveis e sérias horas de ócio contemplativo.

15.2.07

Lugares em que fui infeliz (IV)


Cruzeiro e adjacências, Brasília. Carregando certa vez 16 quilos de bagagem, tive que correr quase todo o lado esquerdo do retângulo da foto - isto é, quase 2 quilômetros - em 15 minutos, para não perder um importante busão. Chuviscava.

Lugares em que fui infeliz (III)


Barra Shopping, Rio de Janeiro. Os corredores mais infindáveis da minha vida.
(intrigaram-me agora as curiosas estrelas hexagonais, em branco e azul, no teto; seriam elas os grandes olhos deste terrível monstro-caverna?)

14.2.07

Lugares em que fui infeliz (II)

Em meio a estes galpõezinhos e predinhos e carros, numa descida de várzea, gramei por uns quantos anos até o dia em que me deram, numa tarde de verão como todas as outras, um divertido pedaço de papel pardo em que um certo senhor fulano - aparentemente bastante distinto, porque pode e dispõe de umas peremptórias "atribuições legais", mas que nunca pude conhecer - atesta e me confere solenemente (há brasões etc.) o título de Engenheiro Químico: "Cidade Universitária 'Zeferino Vaz', 29 de janeiro de 1999".

12.2.07

Lugares em que fui infeliz


Vai fazer sete anos que o comfort omnibus que me trazia ao Deep Brazil caiu deste viaduto, de sete metros de altura. No dito veículo ou fora dele - aliás pintado de verde-amarelo - sete morreram na hora.

6.2.07

Desgraçados

O que querem, afinal, esses tucanos?
Primeiro, o buracão terceirizado no metrô.
Depois, a violência contra a autonomia das universidades paulistas.
Ontem o preposto deles na municipalidade escorraçou um sujeito - supostamente cidadão - aos gritos de "Vagabundo!"
Agora, a alíquota do imposto sobre artigos da cesta básica foi quase duplicada.
São Paulo é o Estado mais reacionário da federação - alguém duvida? - e faz por merecer tais desmandos, posto que insiste em eleger e reeleger essa corja de almofadinhas de Higienópolis & adjacências excrescentes
Como já se disse, sem a privatização (que sempre, sempre favorece os muy amigos) não sobra muito no ninho desses pérfidos piciformes, aliás notórios devoradores de ovos e filhotes alheios.

2.2.07

Cerradas (VI)

rejane disse:
oi
Diego disse:
oi
rejane disse:
oi
Diego disse:
e aí?
Diego disse:
melhorou da ressaca?
rejane disse:
to mal
Diego disse:
vou cuidar de você direitinho hoje a noirte
rejane disse:
ta bom
rejane disse:
vamu no dolar in ou no topas?
Diego disse:
no topas
rejane disse:
eeeeeeeeeeeeeeeee
Diego disse:
agora tenho que ir pruma reunião tá?
rejane disse:
fofffinhuuuu

30.1.07

Bola para o mato

Uma bosta a edição comemorativa dos 50 anos de Grande Sertão: Veredas.
Obsequiado com o exemplar de número 3549, constato logo de cara que a dedicatória com foto de Rosa e Aracy foi diminuída a um mero 3x4 e deslocada para a última página; que dos importantíssimos mapas das orelhas apenas uma amostra mutilada, conquanto grandinha, aparece como vinheta de contracapa; que essas abominações foram cometidas a troco de um livro-brinde chinfrinzito contendo fotos & fatos da "instalação" de uma certa Bia Lessa acerca do romance; que a mesma Lessa néscia assina também o sangüíneo e chocho projeto gráfico.
(é verdade: no livrito, acompanhado por um dvd, há deliciosos fac-símiles dos originais datiloscritos)

6.1.07

Bête noire

"Em Roraima encontram-se também os humanos mais primitivos do planeta: o povo Yanomami.
Como roraimense e governador, não poderia deixar de divulgar Roraima com certo orgulho e paixão."

Neudo Campos
Ex-Governador

23.12.06

/diégèse/

Reparai só, ó milhões, como a forma da expressão da palavrita supra, étimo de evidente extração francesa (Souriau, 1951), constitui perfeita mímese graforréica das feições de um maldito intelectual gaulês, constipado e com sobrancelhas bout-de-souffle, pronunciando de óculos a perfeita tradução do conteúdo da forma pretendida.

14.12.06

Sionismo de massa

"Circuncidar homens africanos pode reduzir pela metade seu risco de contrair Aids, disse ontem o Instituto Nacional de Saúde dos EUA."

4.12.06

Cerradas (V)

Diego mora num comfort suites novo em folha.
Nosso herói geralmente lá chega do trabalho às 19 horas ("é um sossego, não tem trânsito nenhum etc."). Neste verão, como está chovendo pouco em Rondonópolis, Diego acostumou-se a levar seu laptop para a sacada, onde aproveita para repassar as planilhas do dia, bebe sua cervejinha e fuma o único cigarro do dia, contemplando algumas vezes, com ar sonhador, o aumento geral da noite.
Seu flat tem uma bonita vista para sudeste, rumo a rumo com a cobiçada reserva florestal dos Tadarimana.
Logo abaixo do seu campo de visão, ao pé do prédio, está a entrada do mais exclusivo condomínio fechado da cidade. A guarita de segurança está anexa a um prédio envidraçado e condicionado de dois pisos. No térreo, uma galeria de arte com pinturas de naturezas-mortas e abstracionismos vários, com etiquetas e preços. No piso superior, uma bem equipada academia de ginástica. Encimando tudo, sobre as estátuas em iluminação indireta de Hermes e Ceres, o letreiro "Village Lombardia".
Mais além, sobrados, lotes vagos, a rodovia federal, o zunzo surdo dos caminhões. A reserva, escura. O infinito da direção sudestã - até que a primeira estrela sobe.
Mas já está na hora do The OC.

10.11.06

Cerradas (IV)

A "crise no campo" - isto é, o acometimento mais ou menos sazonal de uma febril necessidade de trocar o possante Peugeault pelo charmoso Renot (Liberté é o nome da concessionária Renot em Rondonópolis) - compeliu recentemente centenas de latifundiários a um protesto anti-Governo que interrompeu com tratores e pneus em chamas o tráfego da rodovia federal - quase sob as janelas condicionadas do escritório de Diego.
Enquanto observa a fumaça negra evolar-se rapidamente das barricadas, Diego bebe um cinnamon capuccino (grátis na máquina do corredor). Tirando os sapatos (é horário de almoço, sozinho) suspira cansado.
As intempéries do mercado de alimentação de suínos, ainda bem, não parecem ter afetado a prosperidade profissional do nosso herói. Ao contrário, a gerência regional de carbon credits trade é um cargo prestigiado em tempos de incertezas.
Enquanto os agricultores (sic) protestam e depredam, hostilizando malhando massacrando um boneco fatiotado e vagamente barbudo, Diego pensa em Rejane.
Rejane é sua amante mais ou menos regular, bastante morena e ligeiramente prognata, que conheceu numa noite de bebedeira no forró. Diego só acordou algumas horas depois, no motel, e teve um sobressalto: a moça era, em verdade vos digo, bastante feia.

7.11.06

Confissão

Num filme por mim condignamente pirateado contrabandeado roubado com o auxílio de uma excelente mula (e-mule) de arquivos, aviãozinho infalível, aparece repentinamente uma legenda corporativa anti-pirataria - instantes após as personagens discutirem o sucesso de vendas do livro ("a tiny bestseller") recém-publicado por uma delas. Significância?

5.11.06

Esperança

"Lula vai à praia e estréia sunga verde."

2.11.06

Cerradas (III)

Rebento da classe média-alta paulistana (Vila Mariana), Diego é católico (crismado) e de ascendência misturadamente européia: ao longo das décadas, italianos, espanhóis e alemães acasalaram-se com crioulos, portugueses e caboclos para que o atual esplendor entre grãos de seu dileto descendente pudesse acontecer na borda oesteã do Planalto Central.
Diego tem apenas um irmão. Daniel chegou a se formar em Sociologia pela Usp e, depois de trabalhar poucos mas afluentes anos numa empresa norte-americana de pesquisa de marketing, hoje em dia milita numa organização do terceiro setor que recolhe os fundos obtidos com a reciclagem de embalagens usadas de agrotóxicos no norte do Espírito Santo para a assistência aos desvalidos índios da Ilha do Bananal. Votou, naturalmente, em Alckmin, porque a "crise no campo" reduziu em um terço a quantidade de embalagens descartadas à beira das rodovias capixabas.
Diego, como ele, odeia Lula. É mesmo possível imaginar que os sinais de plástico colante mal-apagados sobre a luzidia lataria negra da traseira de seu Nissan tenham sido produzidos por um adesivo do devoto das gravatas amarelas retirado em dias recentes, mas não há certeza: perguntado, Diego se irrita e, levemente alterado, começa a desfilar um infindável rosário de vitupérios e doestos contra o Governo.
Será melhor falarmos do Palmeiras.